Tomb Raider

Tomb Raider

A heroína mais famosa dos videojogos está de volta e prestes a fazer 17 anos, vive uma crise de identidade própria da adolescência.

Lara Croft está diferente. Longe vão os tempos em que a exploradora inglesa dominava as tabelas de vendas e ditava as regras que outros jogos seguiam. Até os atributos físicos que a destacavam foram perdendo importância ao longo dos últimos anos da série.

O novo Tomb Raider simboliza um corte total com o passado e confirma que a Lara Croft de 2013 está a milhas da arqueóloga rica que encantou os jogadores nos anos noventa. Não deixa de ser irónico que nos primeiros minutos da nova aventura a personagem criada por Toby Gard faça exactamente aquilo que a série parece precisar: olhar-se ao espelho. Para tal, nada melhor que fazer uma viagem até ao passado.

Nasce uma estrela

A história de Lara Croft começa a meio dos anos noventa. Viviam-se os tempos aúreos do Game Boy e a loucura Pokemon estava prestes a começar. A primeira Playstation dominava o mercado das consolas domésticas graças ao poder gráfico nunca visto até então. Após anos a fio de jogos a duas dimensões, a perpectiva dos jogadores começava a mudar.

O boom do 3D trouxe novos géneros nunca antes vistos e deu nova vida aos clássicos. Mas havia um problema. Apesar de aparecerem novos jogos todos os meses, o mercado estava inundado de protagonistas masculinos. Em 1995, uma pequena equipa de programadores da Core Design decidiu que o mundo dos videojogos precisava de um toque feminino.

Um ano depois era lançado o primeiro Tomb Raider. A heroína era uma arqueóloga britânica rica, que corria o mundo em busca de tesouros perdidos de civilizações antigas. Armada com um par de pistolas e munições infinitas, Lara Croft destacava-se pelas proporções avantajadas, fruto de um erro de programação que acabou por se tornar definitivo.

A mistura de acção, exploração e resolução de puzzles conquistou imediatamente os jogadores no PC, na Sega Saturn e na Playstation. Ao perceber o potencial da série, a Sony tratou de garantir que até ao fim dos anos 2000 a sua consola seria a única a contar com Lara Croft. Uma decisão que ajudou a Playstation a vender mais do que qualquer plataforma de jogos até então.

Vida e morte de Lara Croft

O acordo com a Sony garantia o futuro imediato da série, mas obrigava a Core Design a lançar pelo menos um Tomb Raider por ano, algo normalmente visto apenas nos jogos desportivos. A trabalhar contra-relógio, a produtora lançou mãos à obra e exactamente um ano depois do primeiro jogo surgia Tomb Raider II.

Tomb RaiderLar doce lar 

Após a busca por Atlântida da original, a segunda expedição de Lara Croft tinha como objectivo encontrar o punhal de Xian, a arma usada pelos antigos Imperadores chineses para controlar os seus exércitos. Apesar de não trazer grandes novidades na jogabilidade Tomb Raider II foi um sucesso entre jogadores e críticos, acabando por ser o jogo mais vendido da série até hoje (mais de 5 milhões de unidades). A explosão de popularidade levou Lara a quebrar pela primeira vez a barreira das consolas, com o lançamento de uma série de banda desenhada.

Mas para os criadores não havia tempo de saborear o sucesso. Em menos de um ano foi produzido e lançado o terceiro jogo da série: Tomb Raider III – Adventures of Lara Croft. A falta de inovações e o curto intervalo entre lançamentos provocou a primeira queda nas vendas, algo que se tornaria hábito daqui para a frente. A pressão de criar um jogo novo todos os anos começava a ter efeitos e em 1999, acabou por ser demais.

Tomb Raider – The Last Revelation colocou Lara e o seu misterioso mentor Werner Von Croy no meio de uma guerra entre deuses egípcios. No entanto ao contrário das aventuras anteriores, a viagem ao país dos faraós não trouxe qualquer riqueza à família Croft. Acaba por significar isso sim, uma sepultura de areia para Lara, que desaparece sem deixar rasto nas ruínas da pirâmide de Gizé.

Tomb Raider“Misterioso, eu?”

Com o mundo dos videojogos em choque, ainda houve tempo para fechar a história de Lara Croft nesta geração de consolas com o lançamento de Tomb Raider Chronicles, a homenagem dos amigos virtuais da arqueóloga britânica contada através de flashbacks. Estava na altura de dar o tão ansiado salto para a nova geração… e não só.

Novos tempos, novos problemas

A morte de Lara não podia ter surgido em melhor altura. A Playstation original estava a chegar ao fim do prazo, a sucessora estava prestes a chegar e a Core Design tinha tempo de sobra para planear a entrada nas 128 bits. Só faltava uma distracção para saciar os fãs até ao lançamento do novo jogo. E o que podia ser melhor que Angelina Jolie?

Tomb Raider“Os meus olhos estão cá em cima”

 

A actriz norte-americana vestiu a pele de Lara Croft na primeira aventura da personagem pelo mundo da sétima arte, completando a ascensão para estrela internacional. Desprezado pelos adeptos mais fanáticos dos jogos, o filme foi um sucesso de bilheteiras e justificou o lançamento de uma sequela que acabou por fracassar.

A passagem para o grande ecrã serviu de aperitivo para aquele que é considerado por muitos como o pior jogo da série. Tomb Raider – Angel of Darkness trouxe Lara de volta ao mundo dos vivos, mas com várias diferenças. Talvez fruto da experiência no pós-vida a arqueóloga reapareceu bem mais sombria, ganhou um sistema de evolução e a capacidade de escolher o rumo das conversas como é costume em vários RPG.

Tomb Raider
“Bem vindo ao Lado Negro”

As críticas foram praticamente unânimes e as vendas ficaram bem abaixo do esperado. O falhanço do jogo obrigou mesmo à venda da Core Design, pondo ponto final numa era.

Renascer das cinzas

Mergulhada na incerteza após o desaparecimento da produtora, a série Tomb Raider passeou pelas consolas portáteis sem grande sucesso e acabaria por ser salva graças à americana Crystal Dynamics.

O resultado foi Tomb Raider Legend, a sétima aventura nas consolas domésticas. Lançado três anos depois do falhanço na Playstation 2, Legend aproveitou o aparecimento da geração actual de consolas para desvendar uma parte do passado de Lara e recuperar algum do crédito perdido.

O regresso às raízes foi elogiado, mas o efeito prático do renascimento apenas se fez sentir quando foi lançado Tomb Raider Anniversary, a versão melhorada do jogo original da série. O remake acabou por trazer algo que há muito não se via: um aumento nas vendas.

As boas notícias continuaram com Tomb Raider Underworld, a continuação directa de Legend. A retoma estava consumada, com Underworld a ser o Tomb Raider mais vendido desde Revelation.

Tomb RaiderCorre Lara, corre!

 O mais difícil estava feito: Lara Croft estava de novo nas bocas do mundo e nos dedos dos jogadores apesar da concorrência mais apertada que nunca. Torna-se por isso difícil de compreender o silêncio que se seguiu nos cinco anos seguintes, apenas quebrado por Lara Croft and the Guardian of Light, um jogo para download disponibilizado no Xbox Live e na Playstation Network. É deste silêncio prolongado que surge a maior surpresa da história da série: uma nova Lara Croft.    

Morre uma exploradora… nasce uma sobrevivente

Que Lara é esta então, que nos surge no Tomb Raider versão 2013? Bem, resumindo-o numa palavra, podemos dizer que está… diferente. O espírito aventureiro e a agilidade da Lara adulta dos jogos anteriores permanece intacto na Lara mais jovem, mas as semelhanças param por aí.

Tomb RaiderDescubram as diferenças

 

O par de pistolas com munições intermináveis foi substituído por um arsenal bem mais característico dos shooters actuais, que inclui as clássicas metralhadora e caçadeira e o arco mais devastador e versátil da história dos videojogos. Os puzzles que faziam suar até os mais inteligentes foram trocados por execuções ultra-violentas e cenas pré-definidas recheadas de quick-time events e explosões hollywoodescas inspiradas em jogos como Uncharted e Call of Duty.

A exploração dos cenários beneficia da nova estrutura, uma mistura quase perfeita entre progressão linear e open world. A recolha de objectos coleccionáveis é facilitada pelo Survival Instinct, um modo especial de visão semelhante à Eagle Vision da série Assassin’s Creed, que rodeia os tesouros numa luz dourada e marca os inimigos com um tom vermelho.

O resultado das mudanças é uma Lara Croft que parece ter esquecido aquilo que a tornou um sucesso, ao mesmo tempo que aprendia o que é preciso para ter sucesso no mundo actual dos jogos de vídeo. E o mais bizarro é que a aposta foi bem sucedida: o novo Tomb Raider é o melhor desde a trilogia original.

Depois de vários anos, a Crystal Dynamics parece ter ouvido finalmente todas as críticas quanto à falta de mudanças na série. Vários problemas crónicos foram resolvidos: os controlos são fluidos, as armas são mais poderosas e divertidas de usar e o sistema de upgrades é extremamente recompensador. Os ambientes variados e os ângulos de câmara cinematográficos emprestam ao jogo uma qualidade gráfica e dimensão épica nunca antes vista na série.

Diz o ditado popular que por vezes é preciso dar um passo atrás para se poder dar dois em frente. Foi precisa coragem para pôr de lado o que tinha sido feito no passado e começar de novo, mas a verdade é que a decisão foi bem sucedida. Cabe agora à história demonstrar que Lara Croft é o exemplo perfeito da razão do povo.



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