“Zoo” de Víctor Hugo Pontes – Fotografia de João Tuna

“ZOO”, de Victor Hugo Pontes

Oportunidade única

“ZOO” é o nome do mais recente trabalho coreográfico de Victor Hugo Pontes, que teve estreia no Teatro Nacional S. João (TNSJ), na cidade do Porto entre 20 e 22 de Junho. Durante estes três dias a sala do TNSJ encheu-se de público entre as frisas e balcões, camarotes, plateia e tribuna, contrariando por vezes a máxima de que não existe adesão do público a espectáculos de dança. Esta máxima, proferida e fixada por alguns, leva a que este trabalho tenha sido programado dois dias no Teatro Maria Matos  em Lisboa (27 e 28 de Junho), tendo sido reduzido a uma “oportunidade única” de apresentação devido à greve geral de dia 27. Esta “oportunidade única”, parangona utilizada pela comunicação do próprio teatro em forma de saldos, foi eficaz e teve a máxima adesão do público que acorreu ao chamamento. O mínimo que se devia esperar, para um trabalho com esta dimensão, era uma semana de programação e não apenas uma “oportunidade única”.

A cortina de boca de cena abre solenemente e surge-nos um imponente cenário, não muito comum em espectáculos de dança, e deparamo-nos com um conjunto de elementos (a palmeira, a rocha, a luz artificial), e modelações do espaço que nos transportam para o ambiente teatral de um jardim zoológico descrito na folha de sala no excerto do texto de John Berger: Why look at animals?. Racionalmente a forma, o ambiente cromático do cenário remete para uma referência a Blessed, trabalho da coreógrafa Meg Stuart.

Os bailarinos vão surgindo, pausadamente, com mochilas às costas e com olhares atentos de reconhecimento do espaço que os envolve, amplificando a atenção do espectador sobre os pormenores. Este prólogo fortemente teatralizado, que inicia com a abertura da cortina e estende-se até aos primeiros movimentos, surte efeito na atenção que se redobra e intensifica. A música original de Rui Lima e Sérgio Martins torna-se numa paisagem sonora quase hipnótica que nos conduz ao mesmo efeito: a observação.

A fisicalidade dos corpos neste Zoo é descoberta através de movimentos e imagens criadas, com fortes influências dos vários estilos da street dance e pontualmente com referência a estilos mais formais da dança teatral. Este facto, per si,  reforça a animalidade no corpo humano pelas características inerentes aos movimentos, orientando o observador num fio condutor. A qualidade de movimento é fortemente marcada ritmicamente com um abandono da forma nos braços e uma não fixação do tronco, marcando a força da gravidade e do peso num corpo que não se transforma em leve, ideia que surge do solo de Paulo Mota e que se torna recorrente ao longo da peça. É desta associação relativa de movimentos e gestos que dependem todos os efeitos essencialmente característicos que se resume na frase “expressão corporal”, característica comum à força interpretativa dos sete bailarinos em cena. Por tudo que vimos até aqui, parece provável que algumas acções, de início executadas conscientemente, converteram-se pela força do hábito e da associação em acções reflexas, e foram tão firmemente fixadas e herdadas e são executadas mesmo quando não têm a menor utilidade dramatúrgica, como as linhas formalistas de movimento que são meras gestualidades (i.e. as atittudes e arabesques que surgem de forma recorrente no solo da bailarina Dilleta Bindi).

Os bailarinos ao longo da peça vão-se despojando das mochilas, das roupas, como se de uma segunda pele se tratasse, de uma mudança metafórica para uma nova pele que os conduz a uma animalidade cada vez mais flamejante dos seus movimentos e comportamentos, onde a diferença entre “fêmea” e “macho” é acentuada pelas características intrínsecas dos corpos desnudos. Tanto em número, como pela exuberância de movimentos e atitude, os cinco bailarinos assumem uma presença dominadora em relação às duas bailarinas em cena. Basta apenas tentar perceber se é uma opção dramatúrgica ou se outra coisa.

Difícil é não ver os rituais de acasalamento, ou mesmo a brutalidade entre dois “machos” alfa pelo território ou por uma fêmea. A partir  do momento do dueto entre Marco da Silva Ferreira e Vítor Kpez, com uma intensidade dramaturgica, carga interpretativa e um domínio técnico-artístico de excepção, torna-se perceptível que a busca da fisicalidade animal através da unicidade de cada intérprete é de maior interesse que a representação do animal através do gesto e meros comportamentos estereotipados. O que menos parece interessar na linha da dramaturgia do movimento é a literalidade do mimetismo animal, transformando os observadores (espectadores) em etólogos numa busca do animal no movimento dos intérpretes.

A luz vai descendo, sendo de se referir o cuidado desenho de luz de Wilma Moutinho durante todo o trabalho, e uma massa de corpos que parece redescobrir a verticalidade e tenta aquecer-se debaixo de uma luz vermelha. A animalidade volta a assumir a forma humana numa deambulação errante destes corpos pelo espaço, enquanto a cortina vai descendo, voltando a intensificar a importância da força de quem observa: o espectador/etólogo, e da rara espécie observada: a do bailarino/animal.

Fotografia de João Tuna



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