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a minha casa…

"a minha casa é onde estás", exposição de Filipe Casaca patente na Galeria PENTE 10 até 31 de Julho.

Fotografar a intimidade não é fácil. Andar à volta do outro, circunscrever o espaço íntimo através do olhar, mapeá-lo pela janela do visor da câmara e ir disparando o obturador com o característico ruído mecânico associado ao acto fotográfico a cortar o espaço, por vezes apenas uma vez e outras, repetindo-se uma e outra vez e outra ainda. Fotografar é um acto solitário e, dessa perspectiva, fotografar a intimidade parece ser uma aparente contradição.

Como tema, enquanto corpo de imagens que se constrói ao longo do tempo, não tem sido recorrente e a comprová-lo temos as raras presenças temáticas que atravessam de modo sistemático as obras de outros fotógrafos. Aparecem sempre fotografias isoladas, ao longo do tempo, mas raramente organizadas num conjunto desta natureza.

Em “a minha casa é onde estás”, que reúne um conjunto de 15 fotografias de Filipe Casaca, nada é forçado ou encenado, da pose ao enquadramento, passando pela luz, sempre ambiente, com as condições que se verificavam no momento. Há uma recusa na utilização do flash que radica na necessidade do próprio trabalho se dar a ver tal como surge, na lentidão do ver, trazendo os corpos para a luz, modelados do negro, da densidade das sombras, como se de uma escultura se tratasse, de um volume de luz que se arranca à escuridão. Aqui cruzam-se aprendizagens e modos de ver que primeiro encontraram a matéria física na sua dimensão táctil e agora se dedicaram a outros volumes e outras sombras. Tratar a luz como um volume já tem um percurso próprio nas fotografias de Filipe Casaca e a este princípio não é de modo nenhum alheio o facto de todas estas imagens serem originalmente registadas em película. Há uma lentidão e uma densidade do processo que é passada para a impressão e para a imagem final, e quem conhece o processo sabe bem o que está em jogo, desde a materialidade física do negativo ao posterior processamento químico. Há um trabalho de fazer aparecer a imagem que é muito semelhante ao trabalho que acontece quando se fotografa.

Outro ponto que importa reter prende-se com a natureza do acto fotográfico, com a presença do corpo do fotógrafo que aqui, necessária e obviamente, assume a sua presença em pleno em muitas das imagens, seja através de uma identificação imediata entre corpo/autor, seja uma presença mais subjectiva através da percepção que nos dá do lugar de onde olha, da presença que se adivinha do corpo do fotógrafo a tocar o corpo que nos mostra e é neste tocar que regressamos então à matéria e à textura, à densidade que sentimos no aproximar desta pele e deste corpo que o seu olhar nos devolve.

Seria expectável, num trabalho desta natureza, que algumas das imagens pudessem envolver uma forte pulsão sexual. Não deixa de ser interessante notar que essa pulsão surje com maior intensidade precisamente nas imagens que não apresentam nenhum corpo, reforçando a ideia de que a intimidade não se reduz ao sexo e que essa pulsão é uma construção pessoal à volta de determinados traços que investimos de determinada significação simbólica.

Esta noção de intimidade encontra ainda reforço e prolonga-se na escala em que as fotografias são impressas, num formato mais próximo do livro que da parede do museu, obrigando a um movimento de aproximação à superfície da imagem para a sua leitura, uma escala que partilha a noção de intimidade que atravessa o seu conteúdo. Habituado no quotidiano a fotografar a superfície do mundo, Filipe Casaca oferece-nos uma visão interior, centrada no espaço doméstico, a partilha de um momento de intimidade com o objecto da sua afeição. Inacabado por natureza, esta é uma primeira apresentação de um trabalho sempre em evolução e em constante progresso.

Texto de Francisco Feio

Fotografia de Vera Amaral



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