Arcade Fire | “Reflektor”

Arcade Fire | “Reflektor”

Luzes, câmara, acção!

A história de Orfeu e Eurídice é, de entre as muitas que compõem a mitologia grega, uma das mais trágicas. Quando Orfeu tocava a sua lira, oferecida pelo pai Apolo, os pássaros interrompiam o seu voo para o ouvir e os animais selvagens perdiam o medo. Casou-se com a bela Eurídice que, ao tentar escapar das garras de um apicultor chamado Aristeu – um stalker grego -, tropeçou numa serpente que a mordeu e matou. Movido pelo amor e pela revolta, Orfeu desceu até ao mundo inferior e, com a canção pungente e emocionada que saía da sua lira, convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo rio Estige. Pelo caminho conseguiu também adormecer Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Quando chegou ao trono de Hades fez este chorar lágrimas de ferro, dando-lhe o rei dos mortos uma possibilidade de resgatar a sua amada. A condição era apenas uma: Eurídice poderia regressar com Orfeu ao mundo dos vivos desde que este não olhasse para ela até que estivessem outra vez sob a luz do sol. Quase no final, não resistindo a confirmar se Eurídice o seguia, Orfeu espreitou e viu-a tornar-se de novo num fino fantasma, ficando para sempre na sua memória o grito final de amor e pena da sua amada. Havia-a perdido para sempre, com a luz ali tão perto.

Para a capa de “Reflektor”, o seu quarto longa-duração, os Arcade Fire escolheram uma fotografia da estátua de Orfeu conduzindo Eurídice através do reino dos mortos, enfrentando as sombras para alcançar a luz. A obsessão dos canadianos com o poder de sedução e encantamento da luz não é de agora. Em “Funeral” vivemos «Une Année Sans Lumière» e habituámo-nos a viver na escuridão; seguiu-se a leitura da palavra do senhor a partir das páginas de uma bíblia iluminada – “Neon Bible”; viajámos depois até aos subúrbios – “The Suburbs” – da cidade para uma pequena introspecção, vivida ao som de «Half Light I». Agora, chegados ao quarto disco, os Arcade Fire limparam a casa, escancaram as janelas e deixaram entrar toda a luz – há, por exemplo, «Flashbulb Eyes» -, reflectindo o estado de graça luminoso a que chegaram depois de meio mundo os ter tornado na maior banda do planeta e, da outra metade, ter tentado desligar-lhes a tomada, olhando-os apenas como mais uma banda indie condenada ao fracasso.

É em «Normal Person», um dos grandes temas de “Reflektor”, que os Arcade Fire lançam a dúvida existencial que os conduziu a um novo território musical, trocando o rock pela dança perfumada com salpicos pop: «Do you like rock and roll music?/Cause I don’t know if I do».

Arcade Fire Reflektor

Num disco duplo que oferece treze temas, muitos deles a passar a barreira dos 5 minutos, são muitas as razões para celebrar: o clima de festa eterna de «Here Comes The Night Time», um kuduro em câmara lenta com um piano endiabrado e saxofones que aparecem quando são servidas as primeiras bebidas debaixo de uma palmeira; «We Exist», que carrega uma malha de baixo roubada aos pertences de «Billy Jean»; «Flashbulb Eyes» é raggae à moda dos The Clash, com sirenes na retaguarda, um baixo hipnotizante e teclados tropicais; «Normal Person» é rock destilado a la Black Keys e a piscar o olho aos The White Stripes, com solos de guitarra, muitos sopros e coros épicos com voz de criança; «You Already Know» é música de feira popular, aquilo que passaria nos altifalantes de uma pista de carrinhos de choque se o bom gosto musical aí imperasse; «Joan of Arc» é pop sci-fi, abençoada pelo francês extra-terrestre e fantasmagórico de Régine Chassagne; «It`s Never Over (Oh Orpheus)» é malha para fechar em beleza uma noite passada a abanar a anca numa pista de dança; «Reflektor», o primeiro single anunciado, é o mais perto que os Arcade estiveram do território dançante dos Chemical Brothers; «Afterlife» é a cereja em cima do bolo, o relato de um casamento em modo de balanço salvador.

A produção do disco, entregue a James Murphy – o homem LCD Soundsystem – e a Markus Dravs, ajuda a explicar o cunho mais dançante de “Reflektor”, com menos rugosidades e camadas que os anteriores mas, ainda assim, mais experimental, que mostra uns Arcade Fire em grande forma, sem medo de ariscar o que quer que seja. A secção rítmica ganha agora um grande ascendente, com o baixo e a bateria a a saltarem para a linha da frente. Mas há também sopros, coros e todos os artifícios sonoros a que a banda nos tem habituado.

Arcade Fire Reflektor

Os Arcade Fire continuam a usar e abusar do sentido criativo para a divulgação de um novo trabalho. Desta vez, para além da criação dos Reflektors, uma espécie de alter-ego onde alternam entre aparecer ao estilo Elvis ou como cabeçudos deles próprios, houve também o lançamento de um vídeo de 85 minutos no youtube, com o disco de uma ponta à outra, tendo como pano de fundo visual “Black Orpheus, o filme de 1959 da autoria de Marcel Camus.

Para além de mostrar as influências que a banda sentiu nas suas visitas ao Haiti e à Jamaica – onde gravou parte do disco -, “Reflektor” revela que parte do processo criativo da banda se mantém intacto. Os canadianos parecem ter o dom de revisitar o passado e homenageá-lo, tirando dele pequenos fragmentos – The Clash, The Beatles, T-Rex ou Michael Jackson podiam estar na lista – que lhes permitem criar algo de surpreendente, único e genuíno.

Fará “Reflektor” com que os Arcade Fire se tornem numa banda maior, destinada a encher estádios com gargantas a cantar refrões a plenos pulmões? Certamente que não. Mas torna-os, abençoadamente e merecidamente, numa banda surpreendentemente melhor, que não se contentou em dar uma volta triunfal à volta da pista e decidiu, em vez disso, calçar os ténis e arrancar para uma nova maratona. Luzes, câmara, acção, “Reflektor” está aí tomar de assalto as pistas de dança do universo indie. Uma por uma.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This