Dead Can Dance @ Coliseu dos Recreios

Dead Can Dance @ Coliseu dos Recreios

Viagem ao Médio Oriente

Longe vão os tempos em que Lisa Gerrard e Brendan Perry viviam por detrás de uma cortina, dando poucas entrevistas, ainda menos concertos e trocando canções e ideias através de carta, telefone ou, mais tarde, atravessando montanhas e vales virtuais até se transformarem em rodelas sonoras.

Foi preciso esperar até Outubro do ano passado para que os Dead Can Dance se estreassem finalmente em Portugal, numa Casa da Música que viu os bilhetes esgotar em poucas horas. Ontem, num Coliseu dos Recreios também esgotado (apesar de serem visíveis algumas pequenas clareiras), a banda estreou-se na Grande Alface para, amanhã, voltar ao Porto para celebrar a chegada da Primavera. Três concertos em 8 meses é obra.

Mas comecemos pelo princípio, dedicando algumas palavras a David Kuckhermann, o talentoso percussionista que ofereceu uma sessão de electrónica acústica, obrigando a imaginação a pensar nuns Kruder & Dorfmeister em versão campestre e meditativa. Kuckhermann toca um instrumento inventado apenas há dez anos, o Udu – família de que fazem parte o Hang e outras Handpans -, que é qualquer coisa como um cruzamento visual entre um disco voador e a carapaça de uma tartaruga, oferecendo um som ao mesmo tempo orgânico e electrónico, fundindo a percussão com o teclado. Como se apraz dizer nas lides do snooker, tratou-se de uma excelente abertura.

Vestindo maioritariamente o negro, os Dead Can Dance ofereceram um concerto de duas horas onde estiveram presentes todas as suas marcas: os ritmos tribais, as melodias asiáticas e do Médio Oriente, os arranjos com muito de sumptuosidade, mantras capazes de induzir o corpo a uma viagem entre a quietude e o espasmo. Ajudados por um som cristalino e um incrível jogo de luzes, a banda espalhou a sua magia como se o sol se estivesse a pôr no céu do Coliseu. A actuação girou em torno do mais recente “Anastasis”, percorrendo também muitos dos clássicos da banda.

As pinceladas de sonho são muitas: «Agape» é uma dança do ventre psicadélica embebida em mescalina; «Rakim» convida a pôr os óculos de sol e entrar numa festa de fim de tarde à beira-mar; «Kiko» soa como uma versão arábica de Romeu e Julieta, com a voz de Lisa a contar a história de um amor do deserto mal vivido; «Amnesia» é música para fazer amor: na praia, no campo, onde quiserem; «Nierika» foi servida em modo tribal, a convidar a uma dança nocturna à volta de uma fogueira gigante; «Opium» é banda sonora para uma aventura do 007 no deserto; «The Host of Seraphim» é um mantra abençoado pela tristeza, a “Odisseia” de Homero transformada em acordes; «Ime Prezakias”, que numa tradução literal significa qualquer coisa como “sou um drogado”, foi apresentada por Brandon como um retrato destes tempos em que os Governos parecem pouco interessados na crise económica que ajudaram a criar; «Cantara» é música cigana em modo de acid trip – aqui, o jogo de luzes foi fulminante.

A música dos Dead Can Dance é tudo menos apressada, combinando a voz de barítono de Brandon, plena de desvios de tonalidades, com a de Lisa, que oferece um tom operático mais constante e envolvente. É desta simbiose que resulta algo de único e urgente, que algumas décadas depois continua a soar como uma das maravilhas sonoras que a história da música deixou escrita.

Para o encore ficaram guardadas “The Ubiquitous Mr. Lovegrove – uma espanta-espíritos em forma de canção -, «Dreams Made Flash» – onde Lisa Gerrard brilhou como se fosse a única estrela de um céu negro imenso -, «Song To The Siren» – momento kleenex – e «Return of The She-King», um imenso e encantatório parque de diversões. Amanhã a festa far-se-á no Porto, muito provavelmente com a bênção das estrelas.

Fotografia por Luís Macedo 



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This