Denis Côté

Denis Côté

“Eu não sou ambicioso, sou apenas trabalhador. Todos os meus filmes são como tijolos... E eu estou a construir uma parede". Entrevista exclusiva com o realizador canadiano que esteve em Portugal no âmbito da edição 2013 do Cinecoa.

Nasceu em New Brunswick, no Canadá, a 16 de Novembro de 1973. Com apenas 40 anos, já é considerado um cineasta de renome a nível internacional, tendo sido reconhecido pelas mais diversas entidades cinematográficas. A título de exemplo, em 2012, a revista CinemaScope incluiu-o na lista dos 50 melhores cineastas da actualidade e, mais recentemente, em Fevereiro de 2013, o seu último filme, denominado “Vic+Flo Ont Vu Un Ours”, recebeu o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Pela terceira vez em Portugal, depois de ter estado em competição no IndieLisboa com a sua primeira longa-metragem, em 2006, num júri em 2010 e há pouco tempo na antecipação do festival Cinecoa, que se realizou na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, Denis Côté deu à RDB uma entrevista na qual não foi possível falar apenas sobre cinema!

Conhecer o trabalho do cineasta é importante, mas conhecer a pessoa também. Denis adora passear e adora Portugal, sendo que o que mais gosta no nosso país são “as pessoas” e “a tranquilidade que aqui vive”. Mas não só: Denis gosta do cinema português! O facto de ter sido crítico de cinema durante dez anos fez com que conhecesse bem as nossas produções cinematográficas.

Foi em 2005, após dez anos como crítico cinematográfico, que Denis resolveu fazer o seu primeiro filme, sem qualquer tipo de ajuda monetária, não só por não apreciar particularmente ser crítico, como por acreditar que, no geral, as pessoas não gostavam do que escrevia. Segundo Denis, enquanto crítico, pensava constantemente: – “Se as pessoas não gostarem do que eu escrevo, têm bom remédio. Despeçam-me.”

Mas a questão impõe-se… Como realizador, será que Denis prefere ficção, documentários ou curtas-metragens? Ficção, definitivamente. Na sua opinião, à medida que se cresce no mundo do cinema, deixa de se pensar em curtas-metragens. A sua última remonta a 2007. E entre a ficção e os documentários, Denis explicou-nos que, para si, não existem documentários, na medida em que qualquer realizador, inevitavelmente, ao fazer certas escolhas em detrimento de outras, molda a realidade de acordo com a sua personalidade, educação, valores e forma de ver o mundo.

Porém, apesar desta sua firme convicção, Denis gosta de misturar documentários com ficção: “Sei que o meu último filme, “Vic+Flo Ont Vu Un Ours”, é ficção na sua totalidade, mas não me importo de voltar aos documentários e vice-versa.”.

Mas quer se trate de uma curta-metragem, de ficção, de um documentário ou de uma mistura, Denis não se arrepende de qualquer um dos seus filmes. Contudo, reconhece os erros que cometeu em alguns dos filmes que já realizou e, nesse sentido, não voltava a repeti-los, pois procura crescer em cada trabalho enquanto realizador, que é o que quer ser para o resto da sua vida.

Ainda assim, considera-se realmente orgulhoso de “Carcasses” (2009), que não considera ser o melhor dos seus filmes, mas que realizou apenas com o apoio de mais três pessoas e no qual experimentou coisas que pensa que não vai voltar a experimentar. No seu entender, trata-se de um filme “selvagem” e “muito arriscado”. No entanto, Denis crê que para a audiência o seu melhor filme é, precisamente, o seu “bebé”, “Vic+Flo Ont Vu Un Ours”, que a seu tempo vai surgir em Portugal.

Curioso é também o facto de Denis ter vindo a Portugal com a consciência de que os seus filmes apenas seriam vistos por vinte ou trinta pessoas, aceitando tranquilamente o facto da maioria da população ainda não conhecer bem o seu nome, talvez pelo facto de ter realizado “muitos filmes em muito pouco tempo”.

“Eu não sou ambicioso, sou apenas trabalhador. Todos os meus filmes são como tijolos… E eu estou a construir uma parede, a pouco e pouco, também através do contacto com as pessoas que querem ver o meu trabalho. Mesmo que sejam “apenas” vinte pessoas, são vinte pessoas muito importantes.”.

Para além disso, Denis contou-nos que “adorava ser assistente de Michelangelo Antonioni”, que não é o seu realizador preferido, mas cujos filmes têm um segredo que Denis gostava muito de desvendar. “Eu vejo os seus filmes e sei que há um segredo algures, mas não sei onde e não sei exactamente qual é.”

Denis questiona-se: – “Como é que ele fez um filme destes? O que é que se estava a passar na sua mente?”. Questiona-se e afirma: – “É como magia… Vês uma série de cenas que não parecem fazer qualquer sentido e, de um momento para o outro, tudo encaixa, tudo bate certo… Se por acaso tivesse a oportunidade de estar com ele, teria uma série de perguntas para lhe fazer… Do tipo: Porquê isto? Porquê aquilo? Porquê? Porquê? Porquê? (risos)”.

Em relação a novos projectos, Denis sussurrou à RDB: – “Enquanto estamos aqui, está a ser gravado um filme muito experimental, que deve estar terminado em Dezembro e que me faz sentir, simultaneamente, entusiasmado e receoso.”. De imediato, interpelámos Denis: “Como assim, experimental?”. A resposta foi surpreendente: “Não há qualquer guião, estamos apenas a filmar pessoas a trabalhar em fábricas e lojas. No fim, espero sinceramente que se trate de um filme bonito sobre pessoas a trabalhar.”.

O propósito? Expor uma situação do quotidiano de uma prisma diferente daquele que, normalmente, a sociedade impõe… “Trabalhar não é duro, o desemprego não é triste… A verdade é que eu não gosto dos ângulos sociais que existem sobre as temáticas relacionadas com a deste filme e, como tal, realizá-lo é uma tentativa de contrariar esses mesmos ângulos.”.

Voltar a Portugal? Claro que sim! Quando? Em 2014. Onde? Na Gulbenkian.

Aguardamos ansiosamente a sua chegada, Denis!

 

 

 



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