“Diz-me há quanto tempo partiu o comboio” de James Baldwin
Olá, solidão
Alguns livros parecem amadurecer como um bom vinho e a sua “prova” permite absorver uma diversidade de sabores. Diz-me há quanto tempo partiu o comboio, de James Baldwin (Alfaguara, 2025), publicado originalmente em 1968, é um desses raros exemplos e, felizmente, chegou recentemente às livrarias portuguesas pela mão da Alfaguara.
Trata-se de uma obra vibrante cuja narrativa representa um misto entre a urgência pelo presente e a solidão enquanto um peão na estrada da memória, que tem como protagonista Leo Proudhammer, ator afroamericano que sofre um ataque cardíaco em pleno palco nova-iorquino.
A partir desse instante em que a existência fica, literalmente suspensa, Baldwin conduz-nos por um puzzle de lembranças, transportando-nos para a sua infância no Harlem, com passagem pela sombra de Caleb, seu adorado irmão mais velho que foi morto na prisão, assim como por uma vida amorosa marcada pela complexidade da divisão do afeto entre Barbara King, uma mulher branca com quem partilha as aventuras em palco, e Black Christopher, um negro feito de orgulho. Face a um coração dividido e partido, vitima de uma fragilidade nascida do pedido de lealdade incondicional dos seus dois amores, Leo embarca numa viagem marcada pelas diferenças raciais e sexuais que expõem tanto a fragilidade individual como as tensões de um país em convulsão.
Esse dilema avassalador torna Leo um protagonista contraditório e, por isso mesmo, inesquecível, alguém que, ao longo das 450 páginas deste maravilhoso livro, vagueia entre a ambição e a vulnerabilidade, dividido entre mundos que raramente se encontram, e em busca do reconhecimento num espaço social que o tolera mas não o acolhe por inteiro, por aquilo que é. Nessa convulsão entre a solidão e as memórias, o leitor reencontra dilemas intemporais, falemos de pertença, lealdade, um amor que desafia convenções ou a culpa que corrói silenciosamente.

O estilo único de Baldwin, autor de livros marcantes como Se esta rua falasse ou Um outro país, reforça essa densidade e desafia-nos a entrar num mundo onde nada é garantido. A narrativa, ora sensível, ora perturbadora, avança em fragmentos, numa cadência de recuos ao passado que abraçam espaços onde reinam a teatralidade e a intimidade. E, se, por vezes, essa estrutura pode parecer dispersa, é precisamente nela que reside o desafio e força deste romance que é dono de um ritmo irregular da memória e refém da oscilação entre a glória pública e a dor privada.
Apesar da narrativa se centrar na década de 1960, o sentido de atualidade da temática apresentada por James Baldwin neste livro leva a refletir sobre a “pertinência” da mesma, do ponto de vista em que, meio século depois, a sociedade, as pessoas, continuarem a interrogar-se sobre identidade, desigualdade e pertença, a não entender o outro.
Essa capacidade de expor feridas e contradições torna este romance obrigatório. Mas não se espere que Baldwin ofereça ou sugira soluções “fáceis” para tal, uma vez que se concentra em edificar um retrato íntimo, profundamente humano e feroz de um homem que, ao olhar para trás, se confronta com as fronteiras invisíveis entre amor e perda, entre fama e vulnerabilidade, entre o palco iluminado e a escuridão da memória.
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