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Festival de Músicas do Mundo

Sines, edição 2009.

A música é a desculpa a que o mundo recorre para se encontrar em Sines durante 10 dias. O Festival das Músicas do Mundo (FMM) é diferente de todos (os muitos) festivais que se realizam em Portugal todos os anos e é muito mais do que um festival de música. Durante 10 dias, este ano entre 17 e 25 de Julho, Sines e Porto Covo não param com animação nas ruas, exposições fotográficas, apresentações de documentários e, claro, muita, muita música. Música nos palcos mas também nas ruas, ateliers de instrumentos para os mais pequenos e encontros com os músicos para os maiores.

Os básicos: três dias de “aquecimento” em Porto Covo, seguidos de dois dias de concertos mais intimistas no Centro de Artes de Sines e finalmente quatro dias de concerto no Castelo de Sines (um dos recintos de festival mais bonitos do país).

Os três dias em Porto Covo foram na globalidade a maior surpresa do festival. Muito, muito público, sobretudo nos dois primeiros dias, e concertos que no conjunto superaram claramente as expectativas fazendo de Porto Covo cada vez menos um “aquecimento” para os dias de Sines.

Iniciou-se em clima de concerto-festa com os portugueses Oquestrada no Porto de Pesca de Porto Covo, que deixaram todo o anfiteatro com um sorriso nos lábios e de pezinho a abanar com as suas trocas e destrocas de ritmos e línguas. Rupa and the April Fishes tinham tudo para me levantar a curiosidade. Música dos E.U.A. declaradamente humanista, intervencionista, poliglota, universal… esperava muito deste concerto que acabou por ser o mais morno da noite, apesar da Rupa crescer em palco muito para lá do seu 1,50m. Os Circo Abusivo… bem, poucas vezes um nome de conjunto musical é um manifesto tão expresso como o deste grupo de italianos com inspiração declarada em Gogol Bordello. O público, sensível como sempre à misturada balcânica desta vez com toque latino, transformou o anfiteatro de Porto Covo num pequeno-grande circo.

No segundo dia, Victor Démé encantou o auditório com a sua voz límpida dos desertos do Burkina Faso, mas foram sobretudo a sua presença em palco, a sua humildade e gentileza que deixaram marcas em mim. Merci Monsieur Démé. The Ukrainians deram aquele que, para mim, foi o melhor concerto da noite. O público passou, com a plasticidade e a energia tão características do público do FMM, dos ritmos africanos, por vezes quase hipnóticos de Victor Démé, para a crueza e a força do rock britânico com raízes ucranianas. Dele Sosimi foi talvez a grande decepção dos dias de Porto Covo… o seu afrobeat passou um pouco ao lado de um público que começou a dispersar num concerto demasiado longo e que valeu sobretudo pelas incríveis dançarinas em palco.

A Orquestra Típica Férnandez Fierro deu um concerto que condenou todos os do mesmo dia, o kilapanga do angolano Wyza e o hip hop cru e autêntico dos senegaleses Daara J Family, ao quase-esquecimento. Os argentinos descontraídos de jeans varreram o palco e o público com uma tempestade de tango quase-demasiado intenso, violento e distorcido. A tensão e a paixão que se soltava dos 12 elementos em palco tornaram este concerto memorável e o melhor dos dias de Porto Covo.

Foi ao quarto dia que o festival se mudou para Sines, com concertos no auditório do Centro de Artes de Sines durante dois dias. Foi também neste dia que se evidenciou ainda mais a transformação de Sines e se há local em que isso se sentia era no largo do bar Ponto de Encontro, em frente ao Castelo, todos os fins de tarde. Era aí, ao som dos franceses amadores Kidu que vêm a Sines tocar «rien que pour le plaisir», num corrupio de música, espectáculos de rua e línguas, que uma pessoa se esquecia que estava em Sines, Portugal, e percebia a real dimensão deste festival.

Nos concertos do Centro de Artes salientaram-se duas vozes femininas: a israelita Mor Karbasi e a portuguesa com raízes cabo-verdianas Carmen Souza. A israelita que canta grande parte do seu reportório em Ladino, língua antiga inspirada no hebraico, português e espanhol, surpreendeu todos com a sua versão de Fado (foi um belo momento). Carmen Souza encantou naquele que foi um concerto demasiado grande para o tamanho reduzido do auditório, conseguindo contagiar com a sua energia e simpatia todo o público que se encontrava do lado de fora das paredes de vidro do auditório.

O primeiro dia de concertos no Castelo foi talvez o mais morno do festival (a chuva também não ajudou). Com um cartaz demasiado “ibérico”, foi bom ouvir a guitarra portuguesa nas mãos do sineense Rui Vinagre com o seu projecto Trilhos. Após Janita Salomé e antes dos espanhóis Acetre, a galega Uxía deu aquele que foi o concerto da noite. Com convidados especiais como a guitarra e  voz quentes do guineense Manecas Costa ou a voz de trovador açoriano de Zeca Medeiros… Uxía enfeitiçou todos com a sua voz e a sua portugalidade transversal, da Galiza a Cabo Verde.

Os chineses Hanggai foram talvez a maior surpresa do festival. Abriram as hostes da melhor maneira possível no segundo dia de Castelo. Os quatro chineses surpreenderam todo o público com a sua recriação da música tradicional mongoliana conjugada com a força da guitarra eléctrica mas acima de tudo com a sua energia transbordante e com a ancestral e hipnótica técnica vocal hoomei. O público rendeu-se e, pela primeira vez, houve cheiro a festa no Castelo de Sines. Uma festa que seria bem continuada pelos ritmos africanos dos congoleses Kasaï Allstars e, já no palco da praia, pelos Damily, directamente de Madagascar. Os Damily são mestres do Tsapiky, música de dança alegre e descontraída que fechou em grande o dia de concertos.

No penúltimo dia de festival, um nome abafou todos os outros. Cyro Baptista com o projecto Beat the Donkey tomou conta do Castelo de Sines e este explodiu graças à vibração de alta-voltagem do percussionista brasileiro. O público ansiava por festarola a sério e a combinação foi perfeita, tendo Cyro considerado este concerto um dos melhores que já deu.

No cartaz do último dia havia um nome que arrasta multidões consigo: Lee ‘Scratch’ Perry. A multidão veio e, com o Castelo esgotadíssimo, transbordou pelas ruas de Sines que estavam quase interditas à circulação. O blues de James Blood Ulmer e, sobretudo, o metal lírico e obsessivo dos finlandeses Alamaailman Vasarat deram bons momentos de concerto mas o público queria Lee ‘Scratch’ Perry… e de um concerto que estava ganho à partida, pedia-se a festa contagiante da véspera. O tradicional fogo de artifício de encerramento do festival engrandeceu o concerto; Lee ‘Scratch’ Perry continua aos 73 anos igual a si mesmo e diferente de todos os outros e com tantos ingredientes bons, o resultado só podia ser um: um bom concerto, embora não tão electrizante como seria de esperar. A festa continuou noite (e manhã) fora pela Avenida da Praia, ao som dos Speed Caravan e do Bailarico Sofisticado.

Durante os 10 dias em que lá estive, muitas vezes me questionei o porquê da mística da Sines, aquele factor especial que faz com que quem lá vá queira sempre voltar ano após ano. O FMM é um festival onde se vêem famílias, quarentões, teenagers, gentes da terra e gentes que atravessam metade do mundo de propósito, freaks, hippies, mais ou menos alternativos, betinhos e malta normal. Gentes diferentes com algo em comum… este é um festival onde (quase) ninguém vem ouvir determinada banda ou determinado concerto. Vêm todos, sim, à descoberta, de ouvidos e olhos bem abertos, prontos a deixarem-se contagiar… É essa a magia de Sines, que faz com que os artistas sejam repetentes e que um mesmo comentário se ouça repetidamente no backstage: Sines tem o melhor público do mundo.



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