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Festival Rendezvous

Setúbal, 22 a 25 de Outubro.

Os EME (Encontros de Música Experimental) já têm um sucessor em Setúbal. Depois de se terem mudado das margens do Sado para Palmela, depois para Lisboa e de este ano irem ter uma perninha no Porto, os EME deixaram um vazio na cidade, que agora é preenchido pelo Rendezvous Festival, que após uma primeira edição dedicada ao jazz mais tradicional e clássico, vincou a sua aposta no experimental e no improviso. Agora, se tudo continuar assim, já não é preciso irmos para o Barreiro, para o Out.Fest, para saciarmos a nossa fome por aquilo que Fernando Magalhães descreveu, um dia, como “música exigente”.

Eis então a segunda edição do Rendezvous, simpático e sem grandes pretensões, estabelecido no ancião edifício do Club Setubalense, espaço acolhedor e com bastante carisma, com gente simpática e bem parecida a recebernos para uma programação eclética e bem escolhida, que ainda teve tempo para se debruçar sobre o cinema, com a projecção de filmes e documentários. A Rua de Baixo não passou pelas sessões cinematográficas ao fim da tarde, mas acompanhou as actuações musicais no salão barroco do clube. E, como quatro dias de certame exigem sempre uma depurada decantação jornalística, nada como ser preguiçoso e dividir a reportagem abaixo por dias e artistas.

DIA 0

Manuel Mota & Jason Kahn

O primeiro dia de festival foi, na verdade, uma espécie de pré-festival, com um concerto especial que juntou, pela primeira vez, Manuel Mota e Jason Kahn. Toda a gente os conhece e não vale a pena estarmos aqui a demorar-nos em louvores, mas a performance de ambos foi um desilusão. Talvez tenha sido o facto de não terem tido tempo para ensaiarem e tocarem previamente juntos (apenas dispuseram de um par de horas para preparar o concerto), mas a verdade é que ambos não conseguiram criar uma relação musical que desse frutos ao espectador. Mais do que um músico, Kahn é um performer com grande incidência na percursão e nos ambientes sonoros, que não descura os aspectos conceptuais e práticos dos seus projectos. Para Setúbal, veio munido da tampa de um tacho (ok, era um prato, mas parecia mesmo uma tampa de um tacho de aço inoxidável) e de um sintetizador enorme, com os quais estabeleceu uma relação sonora, dialogando entre o ruído e o vazio, dispensando as concepções formais do que é som, ruído ou simples interferência sonora. Em contrapartida, à sua frente, Mota nunca conseguiu estabelecer uma ligação entre as texturas criadas por Kahn e a sua guitarra, deonde se esforçou demasiado em mantê-la numa posição lo-fi. Esperava-se mais risco, especialmente numa parceria que trazia experiência sonora carimbada por todo o lado.

DIA 1

Mikado Lab

Os Mikado Lab são uma espécie de segredo bem guardado do jazz português. O baterista Marco Franco é o mentor do projecto e, só por isso, é um selo de qualidade, ou não tivesse no seu currículo coisas como os Mola Dudle, os Tim Tim Por Tim Tum ou as colaborações com o Nuno Rebelo. Já Pedro Gonçalves é mais conhecido do grande público por projectos como os Dead Combo, mas a sua carreira por trás do baixo (e do contrabaixo) é por demais sabida. A terceira parte deste trio é que, confesso, não conhecia muito bem, mas posso já garantir que me tornei fã da teclista Ana Araújo. Os Mikado Lab são uma espécie de força, que, partindo dos standards do jazz, o renovam em improvisações a tempo real, em que cada músico consegue deixar a sua impressão digital. Marco Franco destaca-se na bateria e, apesar de saber ser um fã de Jim Black, não consigo deixar de me lembrar de outro virtuoso da bateria, apesar do estilo mais clássico: Buddy Rich; Pedro Gonçalvez abraça o baixo com um groove que centrifuga o jazz com o (pós)rock mais arrojado, que salta dos Deerhoof aos Liars num instantinho; e Ana Araújo estica os Mikado Lab pelos terrenos mais sonhadores e espaciais do seu Fender Rhodes. Os Milado Lab são um jazz cheio de vigor e surpresas, como a banda-sonora da fábrica secreta de Willy Wonka, a de LSD.

Coclea

Guilherme Gonçalves, parte integrante de um dos colectivos que deu um dos melhores discos do panorama “mais inovador” da música nacional dos últimos tempos (alguém mencinou os Gala Drop), tem no seu projecto a solo um dos grandes problemas da música experimental recente: teimar em apresentar-se em público de costas para as pessoas. Aparte desta insistência por posturas que possibilitam, facilmente, especulações pseudo-qualquer-coisa e, consequentemente, juízos jocosos como aquele que diz que se não gostas é porque não percebes, Coclea trouxe uma tempestade sónica até Setúbal, provocada por uma guitarra eléctrica e um manancial de pedais. Partindo de linhas de guitarra, Guilherme Gonçalves foi criando sobrepondo camadas, afogadas em distorção e voltagem acima do recomendado, em reminiscências industriais (olá Can) bastante físicas, que foi esticado para lá do recomendável, especialmente depois da guitarra ter sido trocada por uma breve sessão dedicada em exclusivo aos pedais.

DIA 2

Benoit Delbecq

Delbecq é um pianista curioso, que nos leva a questionar e a percepcionar várias coisas. E ao mesmo tempo, diga-se. Uma dessas questões é precisamente a própria definição do seu instrumento: pertencerá este à secção de cordas ou de percussão? Não querendo aprofundar esta questão para o caso, o músico francês apresentou uma intensa actuação em que o piano ganhou uma quase-mutação em tempo real. Isto porque a cada tema interpretado o instrumento ganhava constantes transformações no som das cordas através do uso de pedaços de madeira ou borracha. O resultado foi uma sonoridade bizarra mas fascinante, a lembrar (e muito) alguns instrumentos ancestrais de percussão africana. As bases rítmicas minimalistas e as harmonias desconcertantes lembrariam, a espaços, um outro francês, Erik Satie. Se por um lado se assume como um executante rebelde e inconvencional, por outro lado demonstra sem pudor toda a sua técnica mais academista sempre complexa, inconstante aproximando-o a um género mais clássico.

Cruzando culturas, épocas e conceitos, muito para lá do jazz, talvez mais próximo da música concreta, com um pé lá e outro cá, defini-lo é inútil. Mais urgente sim, será escutá-lo e compreendê-lo.

Sei Milguel Metal Music Four: The Jewel System

Houvesse mais justiça no mundo e Sei Miguel seria mais reconhecido pela sua obra de quase trinta anos – de inconformismo estético, de renovação do jazz nacional e acima de tudo, de mestre e pensador da música portuguesa. Esteve ao lado de João Peste  nos Pop Dell´Arte, colaborou com inúmeros músicos de renome como Rafael Toral ou Manuel Mota e foi figura assídua no Ritz Club, nos anos 80. Resumo: trata-se de uma figura absolutamente incortornável. Mas concentremo-nos no programa The Jewel System: um conjunto de várias peças de onde foi interpretada apenas uma, curiosamente a “mais careta”, segundo o próprio Sei Miguel. Habitualmente em formato trio, aqui transformou-se em quarteto com o guitarrista de Caveira, Pedro Gomes, interpretando um tema-mosaico de cerca de quarenta minutos alusivos a uma vastidão de imagens sonoras. Uma peça esparsa e sinuosa, que viveu muito da percussão de Burago e das guitarras de Gomes. Duas prestações que se complementaram num espaço aparentemente aleatório, mas revelador de uma preocupação estética bastante cuidada. Limando arestas e conferindo uma intensidade luminosa à peça, o trombone de Fala Mariam e o trompete de Sei Miguel surgiram menos do que seria de esperar, mas sempre como assumidos meios orientadores da peça. O pulsar mais jazzístico sentiu-se ao longo de toda a actuação do quarteto, apesar do carácter mais conceptual do mesmo. É verdade que a preocupação pelos pormenores tem sido uma maior tendência nos trabalhos mais recentes de Sei Miguel, mas é interessante reparar que ele nunca, em tempo algum, deixa de ser aquilo que simplesmente tem sido desde sempre: um jazzman.

DIA 3

These Mountains

Os These Mountains foram um diálogo intimista entre Jonny Fryer e Nicolas Burrows, o primeiro na guitarra eléctrica e o segundo na percursão. E se Jason Kahn trouxe a tampa de um tacho para o festival, Burrows trouxe um almofariz. Influenciado, inicialmente, pelos ritmos latinos e, depois, pelos sons arábicos, Jonny Fryer foi tecendo uma enorme e prolongada  mantra na sua guitarra elétrica, ensaiando uma viagem espiritual por ritmos flutuantes e embalatórios, numa espécie de transe minimalista, enquanto Nicolas Burrows pareceu um pouco limitado/envergonhado pela forma em que pareceu deixar de fora muito do potencial da sua bateria. Para o final, Jonny Fryer ainda teve um momento inspirado, transformando a sua guitarra numa guitarra-slide ao recorrer a uma baqueta.

Glaciers

Nicolas Burrows, enquanto Glaciers, parece um one-man band: guitarra nas mãos, um pé no pedal de bombo e outro sobre uma pandeireta. No entanto, não é rock’n’roll que se ouve, mas antes uma pop lo-fi, com voz delicodoce, que tanto se aproxima da neo-folk cristalizada na colectânea “The Golden Apples of the Sun”, como da pop nórdica de El Perro Del Mar. Tímido, mas com grande segurança na guitarra e nos falsetes, Glaciers serviu, simultaneamente, de despedida do Rendezvous e de saudação aos primeiros dias de frio que aí vêm.



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