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Guta Moura Guedes

"Sou incapaz de fazer as coisas pelo prazer da repetição".

Nesta conversa, Guta Moura Guedes diz que a Experimenta Design é o sítio onde se pensa. A poucos meses de começar, em Lisboa, mais uma bienal, Guta explica que, apesar da crise e dos atrasos burocráticos, este continua a ser um dos maiores eventos do mundo dedicados ao design e à criatividade.

Guta, o que é que a bienal de 2011 vai fazer no sentido de tornar a EXD numa marca, ainda mais forte, de Lisboa lá fora?

Esse é o grande desafio. Uma coisa é começar um evento em 1999, e outra é fazer a avaliação desse mesmo evento em 2009, num contexto que é diferente de quando se começou. Sou incapaz de fazer as coisas pelo prazer da repetição ou do sucesso já garantido. A edição de 2009 foi uma das edições com melhor e maior ressonância do ponto de vista conceptual, com conteúdos absolutamente fundamentais para o discurso desta disciplina. Foi o fechar de um ciclo (10 anos da bienal) com chave de ouro.

O objectivo é talvez superar o que foi feito em 2009… De uma forma rápida, o que vai acontecer na EXD de 2011? Como é que se vai concretizar essa superação?

Tomámos a decisão de investir ainda mais na investigação e na experimentação, mais na inovação, com ênfase no olhar da cultura e da criatividade puras, desligadas do circuito comercial. Colocámos, assumidamente, a tónica na área da inovação social e da indústria. Afinámos esse discurso. Continuamos a ser uma bienal muito dirigida para o grande público, que vai marcar cada vez mais o panorama internacional como o sítio onde se pensa, onde se discute, onde se diverge e onde se investiga. Acho que é nesse sentido que podemos continuar a ser diferenciadores. Depois de 99, aconteceram vários eventos com esta filosofia, mas fomos nós que lançámos essa forma de estar.

De lá para cá o país mudou muito…

O país mudou muito, o mundo mudou muito, e por isso as necessidades, quer nacionais quer internacionais, são muito diferentes. Acho que há uma necessidade muito clara do ponto de vista da aproximação entre a comunidade criativa e a económica, e da comunidade criativa com o tecido social. Estes são dois temas que me interessam imenso. Eu diria que a bienal se pode tornar mais encriptada em alguns layers, mantendo sempre formatos e discussões e partilha de informação para o grande público.

“Useless” é o tema deste ano. Depois de uma reflexão sobre o tempo, há dois anos, surge aqui um tema que é quase uma provocação. Reflecte-se sobre a utilidade ou inutilidade dos objectos…

É um tema que até a mim ainda causa imensa inquietação porque toca um território que tínhamos mais ou menos estabelecido como preconceituosamente negativo: a ideia de não fazer nada, do não uso. Nós temos isso como uma espécie de preconceito, ou seja, se alguém diz que alguma coisa é inútil, isso à partida é negativo.

E na bienal de 2011 vamos partir precisamente dessa ideia de que não é necessariamente assim, e que, eventualmente, essa ideia da inutilidade, ou do não uso aparente ou evidente, são condições absolutamente necessárias para a criatividade e para a inovação. Por outro lado remeterá muito também para a nossa própria relação com o uso puro e duro das coisas. Ou seja, como é que nos relacionamos com o consumo dos objectos, com os sistemas de produção, com todos os sistemas ligados à utilidade e à produtividade, à nossa necessidade de estar sempre a produzir quando, na verdade, não é bem assim. É um tema que eu acho que faz um match muito bom com este momento de crise, em que vamos ser obrigados a reavaliar processos de produção.

O evento será marcado pela presença de vários nomes internacionais. Em 2009 isso aconteceu, mas há quem olhe para essa predominância internacional com alguma reserva…

A coisa tem de ser vista num desenho mais global, as pessoas têm de perceber que a Experimenta actua em muitas frentes e que a bienal é apenas uma das nossas pontas de actuação. Cada vez que vamos ao estrangeiro levamos sistematicamente, consistentemente e quase exclusivamente só criadores portugueses. Basta lembrar a Voyager 2001 e 2003, que foram duas operações de comunicação sobre criatividade portuguesa, levadas a Madrid, Barcelona, Milão, Londres só, exclusivamente, com portugueses. As pessoas tendem a esquecer, por causa da força e do peso da bienal, o trabalho que fazemos fora deste evento e que é quase todo ele exclusivamente dedicado à produção nacional.

Olhando para os vários programas ao longo dos últimos 12 anos de existência da bienal, temos sempre portugueses em todas as frentes.

Este ano lançamos a série “Don’t look back”, com o Fernando Brízio como protagonista único dessa exposição. Fizémo-lo por saber que a bienal, efectivamente, é um grande display e que aqui e ali nós faremos este push up pelos designers portugueses. Sendo que eu nunca imponho um designer português a nenhum curador, eu quero que sejam eles a dizer “aquele designer é muito bom, quero trabalhar com ele”.

António Amorim referiu, durante a apresentação do projecto “Matéria”, em Milão, que um investidor estrangeiro a nomeou a si, Guta, como a principal razão para apostar neste projecto. Guta Moura Guedes é um nome que não está exclusivamente ligado à EXD, mas que está muito associado a ela. Na cabeça de muitos o seu nome vem mesmo antes do da bienal. Isto é positivo para a EXD?

Tive o cuidado de colocar essa questão, exactamente assim, a alguns dos interlocutores nacionais e internacionais em quem confio mais, e que são muito críticos em relação a mim e ao meu trabalho. Lembro-me perfeitamente de uma das respostas do Hansel Ulrich Orbist [director da Serpentine Gallery], um dos principais curadores e pensadores na área da arte contemporânea, que me disse: “São as pessoas que fazem as coisas, tu sais, a Experimenta é outra, so what? No momento em que a EXD for dirigida por outra pessoa, passará a ser outra coisa, neste momento é, obviamente, um evento ligado a ti”. Neste trabalho das indústrias culturais, isso é um motivo de reflexão interessante, a actividade cultural está intrinsecamente ligada à identidade de quem a exerce. O facto de eu dirigir a Experimenta e dirigir a bienal, é apenas um pormenor.

Esta associação directa, esta pessoalização, pode ser encarada como uma estratégia de comunicação… Acha que é eficaz, que é positiva?

Durante uns tempos, como sou uma pessoa muito crítica, isso inquietou-me. Mas depois percebi que era uma condição sine qua non.

Temos o caso da ModaLisboa, por exemplo, em que o nome da Eduarda Abondanza passa quase despercebido. O que ali se conhece e divulga é, exclusivamente, o evento…

Sim, mas temos de perceber que o trabalho que a Eduarda faz no contexto da Moda Lisboa é muito diferente do meu trabalho na Experimenta. Nós fizemos algo de muito revolucionário e com uma identidade muito marcada e, mais uma vez friso, estou convencida que as coisas que nós fazemos têm sempre esse carácter marcadamente experimental, inovador e autoral. Passo a vida a falar em escolas, com estudantes do país inteiro, que é uma coisa que ninguém sabe, mas que obviamente tem a sua repercussão.

Não quer revelar muito, no concreto, os projectos que existem para esta edição… Os projectos especiais, à semelhança de 2009, estarão presentes este ano, certamente. Um dos que me chamou mais a atenção há dois anos foi o “Jardim do Século XXI”, como a própria Guta o designou. Um projecto de intervenção multidisciplinar no Jardim de Santos. Hoje passamos por lá e está tudo igual. O que se passou?

Uma intervenção com o carácter alterante como a que nós propusemos tem implicações em variadíssimas frentes e necessita de interlocuções e negociações com muitas pessoas. Aí a EXD não pode fazer nada.
Esse projecto está entregue, está a decorrer a um ritmo lento devido ao nosso sistema burocrático.

Essas implicações que refere não foram diagnosticadas antes do projecto ser apresentado?

Essas implicações não são negativas nem sequer complicadas, é apenas um processo muito moroso. No protocolo que celebrámos era claro, nós tomamos parte do processo criativo e de projecto e eles tomam conta da parte processual. Muito embora nós tenhamos contratado uma equipa com especialidades muito próprias para poder preparar um dossier com todos os requisitos técnicos. Mas a dada altura não podemos fazer mais.

Até que ponto esta situação não descredibiliza a marca EXD?

Eu espero que não, vou ter que me pronunciar sobre isso e o próprio presidente da CML também, sem dúvida, daqui a uns meses. O que posso dizer é que não está esquecido, mas bate, talvez, naquilo que é mais dramático em Portugal que é a dificuldade de implementação, de agilização e decisão.

Como é que a EXD está a lidar com a crise. Há mais dinheiro, menos?

Há muito menos dinheiro, há uma dificuldade muito maior de interlocução com parceiros privados, claramente. O que a EXD fez foi uma antecipação da crise. A reflexão que fizemos ao longo destes dois anos não foi só sobre a bienal, foi sobre toda a Associação Cultural sem fins lucrativos que somos e sobre o nosso modelo de sustentabilidade financeira, principalmente depois do que aconteceu em 2007, com o cancelamento da bienal e o impacto negativo que isso teve sobre nós. Nós tínhamos a obrigação de, perante o que aconteceu, perante o que estávamos a prever, definir uma estratégia. Assim, criámos outros pilares de sustentabilidade financeira para a associação, nomeadamente uma unidade de investigação na área do design social, outra na área do design e indústria e apostámos na consultoria estratégica. Desta forma, a associação não fica financeiramente dependente de um evento cultural como a bienal. O contexto que atravessamos torna a vida de qualquer agente cultural muito mais complicada! Se há uns anos atrás já era difícil explicar que a cultura é absolutamente essencial para a nossa sociedade, agora mais difícil é. As pessoas vão estar a lutar por uma espécie de sobrevivência que remete para aquilo que de mais básico existe, a alimentação, comida, higiene e dignidade. O contexto muda muito e nós adaptamo-nos a ele, como sempre.

Fotografia de L. Barros



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