rdb_bertholo_header

Joana Bertholo

“Haja boas histórias e ouvidos para as ouvir”.

Há a família Kozak que, na Ucrânia, tenta ultrapassar a ausência do pai emigrado no Brasil, para onde toda a família rumará. Mais tarde, num navio, na tentativa de um reencontro. Noutra cidade, noutro tempo mais futuro e talvez apocalíptico, existe Michael, estudante de cinema, que tímida [mas intensamente!] se apaixona por Nina.

São estas duas narrativas os fios condutores. Mas “Diálogos para o Fim do Mundo”, o novo livro de Joana Bertholo, está intersectado de outras estórias e detalhes. Como a capacidade de amar [mesmo em tempo de guerra], as inúmeras espécies extintas do planeta [e outras que ainda não estão], a ditadura das religiões e das suas igrejas “onde nem todos são bem-vindos”.

A escrita moderna deste romance marcado por intercepções, forwards e rewinds – como se, através de um telecomando, tentássemos ver de uma só vez vários filmes que passam em canais diferentes – pode parecer difícil durante os primeiros capítulos.

Mas ao entrarmos no olhar [cinematográfico?] e na melodia que se constrói capítulo a capítulo, tudo se conjuga. Porque apesar do tempo e do espaço que separa as personagens e as estórias, “segue tudo e todos juntos, num ajuntamento de opções flutuantes,  uma espécie de arca”, como diz a contracapa do livro.

Apesar de jovem [nasceu em 1982] Joana Bertholo apresenta já um currículo extenso. Actualmente vive em Berlim, mas já fixou residência em diversos países europeus e também na Argentina, acumula prémios literários e outros, tem dois livros de ficção publicados [«Havia – Histórias de coisas que havia e de outras que vão havendo» e «Boa-Nova»] além do que foi agora editado e distinguido com o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho.

Em entrevista à RDB, Joana Bertholo fala das personagens que habitam “Diálogos para o Fim do Mundo”, de como sobrevive sempre a capacidade de amar o outro, dos projectos que tem actualmente em curso e também daquilo que a move enquanto ser humano e “designer socialmente responsável”.

“Diálogos para do Fim do Mundo” tem dois fios condutores – a estória da família Kozak e a estória de Michael e Nina – que se passam em tempos diferentes. Um passado e um futuro que, no entanto, se cruzam. O que é para ti o tempo?

No tempo em que escrevia este livro o tempo em si era para mim um dilema com D grande. Esta relação com as imagens do passado e as imagens do futuro de que trata o livro era para mim sempre tensa e demasiado enevoada. Hoje em dia já não o sinto assim, ao tempo. Creio que isso passou por cada vez dar menos atenção e espaço mental a essas imagens do passado e do futuro, que sempre se/me confundem, e admitir que o único tempo possível é o momento presente.

Usando expressões do livro, hoje para mim o tempo passa por esse imperativo “Aqui. Agora.”

A estória da família Kozak passa-se na Ucrânia, com o Brasil em pano de fundo… Porque a Ucrânia?

Para ser honesta, não sei bem. Era onde estava o personagem que vivia na minha cabeça. Em leitura posterior consigo perceber que é para mim mais fácil escrever sobre sítios onde nunca fui e situações que nunca vivi. Ah, e também houve a biografia do Leon Pfeffer, um dos pontos de partida do livro, que começa nessa zona.

Uma das filhas de Bertha, Karenyina, observa que “as pessoas caminham de forma diferente quando sabem para onde vão”… É importante saber para onde vamos?

Sim, eu acredito que sim. Esse saber é só uma imagem, que nos conduz, e é só uma história que nós contamos, mas sem ela, dificilmente te motivas a mexer. Por isso é que este livro é sobre a importância das imagens e das histórias, e aquilo que elas fazem de nós.

No teu livro há várias referências à religião católica… “Onde nem toda a gente é bem-vinda”. Há alguma relação entre o fim do  mundo [do teu livro], a guerra, e esta religião?

Sim, todos estes argumentos estão altamente interdependentes, na estrutura do livro e na minha opinião independentemente dele. Há várias maneiras de ilustrar esta relação, mas ela é sempre bastante íntima – as guerras foram quase todas travadas em nome de um deus ou de uma fé fundamentalista. Aqui não há distinção entre a católica e as restantes. Por outro lado, é fascinante ver como as diferentes narrativas, de religião para religião, no que concerne o fim do mundo e à possibilidade de vida após a morte, moldam directamente uma série de códigos e valores a serem aplicados nesta vida. Mas atenção [no livro], é à catedral que nem toda a gente é bem-vinda, não à religião católica.

Existe também uma personagem, Michael, marcadamente céptica em relação à vida depois da morte… Achas possível ou importante a existência de uma vida para além desta?

Esse é um tópico no qual eu pessoalmente não tenho uma opinião formada, e talvez por aí os diferentes personagens apresentem diferentes pontos de vista, todos argumentos plausíveis dentro da minha própria cabeça. Identifico-me muito com essa postura incrédula do Michael em relação à vida após a morte, mas também vejo a forma como em certas visões do mundo, como a Budista, essa ideia do renascer e do processo karmico nos podem pelo menos inspirar a levar vidas mais orientadas para valores construtivos.
Em resposta à pergunta, sim acho possível, ainda ninguém me provou convincentemente nem a possibilidade nem a impossibilidade. Se acho importante, sim, se for um factor motivador a vivermos mais plenamente esta vida aqui e agora, seja lá o que venha depois. E até acho desejável… de um ponto de vista estritamente de conforto existencial, não me agrada pensar que um dia desligam a corrente e apaga-se tudo.

O livro menciona realidades ecológicas dramáticas – como a extinção de várias espécies animais… Como visualizas o futuro da humanidade em termos ecológicos?

Eu gostava que este livro não fosse profético. Gostava mesmo que ele se equivocasse na sua leitura de onde tudo isto que estamos a fazer hoje nos pode conduzir. Mas enquanto processo imaginativo, ele é exactamente isso. É um “fast-forward” a um futuro próximo que é justamente a consequência da negligência com que vivemos ambientalmente hoje.

Acho que não sou uma pessoa derrotista nem extremamente pessimista, mas realmente assombra-me a nossa vontade colectiva de estragar tudo. Se é esse o nosso objectivo inconfesso, estamos no bom caminho.

Mas acredito que não é, que não seja, que em algum momento a transição necessária se dá, e para mim virá a nível da consciência de cada um e da relação com os outros.

Apesar de sobreviver em cenários mais ou menos apocalípticos, as tuas personagens vivem intensas estórias de amor. É importante [e possível] o amor em tempo de guerra?

Se há coisa em que parecemos nunca perder o interesse sejam quais sejam as circunstâncias é esse Outro… Quando digo interesse sei que ele nem sempre vem na forma de amor, vem tantas vezes na forma de poder, cobiça, conquista, e toda uma gama de sentimentos menos românticos… O livro começa com esse convite em forma de pergunta: é possível que alguém se apaixone em tempo de guerra? E logo ali, e em todos os capítulos seguintes é dito Sim.

Sim, sim, sim.  É possível e é importante, se as condições exteriores nos despirem de toda e qualquer humanidade, que perseveremos nesse trabalho base de ser-se humano que é o amor. Seja qual for a situação a que isto se refere, não precisamos ir tão extremo quanto uma guerra, a evidência – até o lugar comum… –  é que quando tudo colapsa, temo-nos uns aos outros. Sem isso, então, é que para mim há mesmo um fim.

“Diálogos para do Fim do Mundo” tem muitas referências a filmes e a escritores ao longo do livro. De que maneira estas duas artes influenciaram a construção do teu livro?

Talvez os “Diálogos” sejam um livro exageradamente referenciado, julgo que sim, mas no processo de se começar a escrever, nos primeiros passos da escrita, sinto que é genuíno e compreensível que se sigam aqueles que nos inspiram. Aquela ideia de subir ao ombro do gigante para ver mais longe. […] Por outro lado eu sou uma pessoa que passa imenso tempo como audiência, vou imenso ao cinema, ao teatro, à dança, ou seja, sou resultado muito mais de um universo de produção artística visual, do que necessariamente literária. Mas há que dizer que não acredito muito nestas distinções, ver um filme, ler um livro, no fundo o que há – para mim – são histórias.

Além deste romance também já escreveste para BD e cinema. Qual a diferença entre escrever para romances, textos para BD e guiões?

Julgo que em parte respondi na questão anterior. Por exemplo, agora desenvolvo um guião de uma curta com um bom amigo. É uma escrita completamente diferente, evidentemente há diferenças entre os formatos. Mas na essência de todos há apenas esse desejo em volta da fogueira de partilhar uma história. E isso é o que mais me fascina. Não sei ainda se o formato que mais me preenche é este do romance, do livro redondinho com princípio-meio-fim. Não sei às vezes se quero mesmo escrever outro livro, ou se encontro uma forma melhor de contar as minhas histórias. Tenho um fascínio gigante pelo cinema, mas os tentáculos da indústria assustam-me. Amo o teatro e o mundo da performance, onde as coisas permanentemente se desenrolam sem que as possamos facilmente delimitar em caixinhas reprodutíveis. Não sei, só o tempo o dirá. Haja boas histórias e ouvidos para as ouvir.

Estás em Berlim a concluir a tua tese de doutoramento e o teu novo livro. Em que ponto se encontram estes dois projectos?

Sim, esse é ainda um outro nível ao qual se pode contar uma história. Está a ser extremamente desafiante a escrita académica, mas estou a adorar o processo e a sentir-me a aprender coisas novas todos os dias.
A ideia para o próximo livro nasce muito antes deste doutoramento chegar à minha vida, e o facto de hoje se encontrarem em imensos pontos é daquelas confluências bonitas da vida. Mas claro, também sinal que as minhas inquietações se reflectem de formas diferentes mas são sempre as mesmas.

Neste momento estou em fase de pesquisa para ambos, e para ambos está a correr bem, mas para ambos está tudo ainda incrivelmente indefinido. Mas é sempre assim, comigo. Não só não me assusta (demasiado) como aprendi a divertir-me com esta coisa de nunca poder prever quantas voltas as coisas ainda vão dar.

Mas sim, há um diálogo muito intenso entre a escrita académica e a ficcional neste momento, o que tem sido para mim um grande desafio.

No teu site da Internet descreves-te como uma “designer socialmente empenhada”. De que maneira o design pode ajudar a tornar o mundo melhor?

Qualquer pessoa, qualquer actividade pode ajudar a tornar o mundo melhor, ou a gerar melhores possibilidades para o mundo. Vejo que os designers estão estrategicamente posicionados, dada a sociedade do visual e da informação que temos hoje, para serem multiplicadores de mensagens produtivas, e catalisadores de processos que nos levem numa direcção menos auto-destrutiva que a actual. Acredito no poder do design, mas também acredito no poder de tantas outras actividades. Não são os designers que vão salvar o mundo – mas podem contribuir, isso podem.

Acredito que uma pessoa empenhada, criativa, bem informada e esclarecida pode fazer imenso, se lhe derem os instrumentos e a audiência. E não é isso que se quer de um designer?

O que aprendeste durante o teu trabalho com a Eloísa Cartonera, na Argentina?

Tanto! A minha passagem por Buenos Aires foi um período rico e transformativo da minha vida, que me ensinou coisas que ainda ando hoje a processar, e já voltei faz um ano.

Há uma base de optimismo no que concerne ao conceito inicial da Eloísa Cartonera, uma visão muito estimulante do mundo, que nos mostra que quase sem meios e sem recursos, qualquer pessoa pode começar um projecto válido e bem sucedido, que contribui sobremaneira para o bem-estar dos que os rodeia. Com tão pouco, eles conseguem gerar valor social, cultural, artístico, económico. […] E depois há a distância entre as boas intenções e a vida quotidiana, a forma como tantas vezes essa base de optimismo se deturpa e se transforma em “mais do mesmo”… a Eloísa está bastante longe de ser um projecto perfeito ou imaculado, mas foi nessa humanidade da sua incoerência constante que aprendi mais sobre o design social – e a vida!

Qual a qualidade que mais admiras na humanidade?

Ui, que pergunta gigante. Na humanidade toda como colectivo não sei dizer. Sei que nas pessoas que me rodeiam admiro sobretudo a empatia e o sentido de humor.

E a que te deixa mais descontente?

Tenho sempre dificuldade em lidar com o auto-centramento, o individualismo, a falta de empatia. Sou daquelas pessoas que acreditam com fervor no poder da comunidade, e isso começa em cada elo. E o que mais me aflige são sempre as pessoas que põem isso em causa por um bem a curto-prazo, ou estritamente pessoal.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This