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Luís Miguel Cintra

“Voltou-me uma curiosidade pela vida!”. Conversámos com Luís Miguel Cintra sobre o teatro, sobre a vida. Ele não abdica de querer utilizar a posição singular que tem na actividade teatral portuguesa para reflectir criticamente sobre o teatro.

Desde que escrevo para a Rua de Baixo já me cruzei três vezes com os trabalhos de Luís Miguel Cintra. “Miserere”, “Fim de Citação” e agora, “Cacatua Verde”. São pequenas conversas, não são grandes entrevistas. Já ninguém tem tempo nem espaço para publicar grandes textos e por isso os assessores de imprensa tentam uma economia de meios e fazem uma roda de imprensa. É mais prático e poupamos os nossos criadores ao calvário de terem de responder pela enésima vez a algumas perguntas que de uma forma ou de outra se aproximam umas das outras. Tem um lado menos interessante: muitas vezes vamos adiando aquela pergunta mais pessoal, mais directa. Desta vez tive mesmo de as fazer. Desde Miserere que sinto que a sua relação com o teatro, está diferente. Disse-lhe isso e perguntei-lhe se era ficção minha:

“-A certa altura começo a pensar na história do teatro todo, já fiz peças de todas as épocas. Conheço já o teatro muito bem. E também começo a chegar a uma fase da vida em que as pessoas, de uma maneira ou de outra, começam a fazer balanços. Eu não gostaria de me instalar numa posição de prestígio que sei que adquiri e interessa-me continuar a ter prazer em fazer teatro. Ter prazer em fazer teatro, o prazer de jogar, de estarmos uns com os outros, de criarmos uma espécie de ilha com o trabalho teatral em relação ao resto do mundo.”

Fala que começa a querer dar um sentido à sua vida, e sendo o teatro uma forma do homem falar aos outros homens sobre a vida apetece-lhe não desaproveitar o tempo e falar. Confessa que há já muitas peças que o aborrecem, que tem vontade de estar com outras pessoas que não são do teatro:

– Voltou-me uma curiosidade pela vida. – Fala de que o teatro é uma profissão onde é facílimo estar longe das outras pessoas, por causa dos horários que são diferentes, e que por isso as pessoas têm tendência em viver em circuito fechado, diz que “ todo o teatro é um sistema autofágico que consome as próprias pessoas”.

Para ele atravessamos um momento em que os espectáculos se tornaram passatempo, mais ou menos elaborados, mais ou menos inteligentes, mais ou menos criativos, mas em que é cada vez mais difícil criar uma ligação tão profunda entre os espectáculos e a vida. Diz mesmo que “o teatro passou a fazer parte de todo o conjunto de objectos de consumo que contribuem para o nosso conforto burguês e que nos afasta da essência das coisas. Eu sou inconsolável em relação a este assunto. Sempre pensei no teatro de uma forma totalmente oposta.”

Disse-lhe que noto que há uma dimensão mais pessoal no seu envolvimento. Respondeu:

“- Sim e também não tenho medo de me expor, de me expor pessoalmente, de expor aquilo que penso, insisto em não ter uma relação cínica com o público. A partir do momento em que o teatro se torna numa fabricação de produtos de consumo, a relação é uma relação traidora. Que não é leal. E que não é uma relação verdadeira, honesta, com as outras pessoas que se vem sentar na plateia, e que são tão dignas de respeito como nós. “

Diz que quando começaram antes do 25 de Abril, lutaram muito por isso, quando havia empresários, quando havia censura, não queriam intermediários que os utilizassem como instrumentos de um negócio e fizeram cooperativas, grupos.

“- Houve sempre uma espécie de ética na nossa cabeça que neste momento desaparece muito, a um ponto mesmo que está cada vez mais instituída a figura do agente. Há duas figuras no funcionamento da profissão actualmente e que a meus olhos são sinistras. É o agente e o programador. Porque tiram a responsabilidade a próprio artista.”

Não poupa o agente e é implacável com o programador. Para ele, salvo raras excepções de alguns programadores que usam uma posição de poder para defender a criação artística, o programador está apenas interessado com o que se passa na plateia, a relação é cínica, é cínica para os dois lados, para com o público e para com os artistas. “-Os actores, numa situação que implica a sua própria sobrevivência, são um joguete dentro disto. Já que tenho prestigio eu não queria abdicar de o usar para exercício de alguma liberdade exemplar. “

Tem cada vez mais uma visão pacificada da vida. Não a entende como um somatório de vidas individuais, sim como um movimento colectivo de toda a humanidade. “- Só aceito a morte, e apesar de tudo uma pessoa quando chega à  minha idade já pensa nestas coisas, só a aceito pensando que com a minha morte não acaba a vida”. Contou que no ensaio do dia anterior, como era sábado, alguns actores tinha trazido os filhos e que ele deu por si a ir fazer um gesto de carinho para o bebé. “ Tenho uma comoção especial porque o bebé que nasce vai ter uma quantidade de vida como eu tive e depois vai-se acabar, para mim isso não é triste, gosto muito de pensar nisso, provavelmente até porque não tenho filhos.”.

A vida de actor. Confessa que nesta profissão os actores prolongam a juventude até muito tarde: “ A gente vive de uma maneira completamente imprópria para pessoas da nossa idade. Jantar sopa em pé, não ter um fato limpo se precisamos de ir a uma cerimónia pública, a casa é imunda, toda desarrumada.” Diz que não é costume pessoas da sua idade e considerados publicamente viverem assim. Fala da perda da ideia de geração mais velha que sentiu quando morreu o pai, a mãe e pessoas como o prof. Orlando Ribeiro, o Padre Manuel Antunes, a Sophia de Mello Breyner.

Neste vaivém de perguntas o movimento não é rectilíneo. Quando uma jornalista lhe pergunta como é que o público vai acolher o espectáculo, fala da sua experiência recente com o Miserere. Este espectáculo foi rejeitado tanto pelos conhecedores de Gil Vicente como por um público normal mas, surpreendentemente, foi apanhado por pessoas que nada tinha a ver com o catolicismo, que não tinham formação literária e que se sentiam muito tocadas pela representação. “Era um público muito inocente!”, exclama, assinalando que em teatro “ há uma relação não discursiva com o espectador. O espectador tem sensações, memórias. Emoções. Exaltações, repugnâncias. No fundo é disso que as pessoas se lembram.”

O facto de a conversa ter seguido para esta ideia da relação que se estabelece entre o público e a sala foi a minha deixa. Citei uma frase do espectáculo “ O melhor é batermos palmas para ver se nos passa esta sensação desconfortável.” e perguntei-lhe sobre este mundo extraordinário, o teatro, em que pessoas, diante de outras,  fazem de conta que são outras pessoas.

“- É uma necessidade de as pessoas se juntarem. De pessoas vivas. É por isso que quanto mais se afasta o espectador da noção de que são pessoas de carne e osso que estão ali à frente, mais acho que se está a negar a essência do teatro.” – Distancia-se dos espectáculos que utilizam recorrentemente a imagem. “- São pessoas vivas que estão a construir uma espécie de objecto enigmático. E a sensação, a emoção que esse objecto provoca é o motivo por que elas se reúnem. No teatro gosto de estar na primeira fila, gosto é de ver as pessoas vivas ali em frente. O teatro é um fenómeno humano.”



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