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Ifigénia na Táurida

A obra de Goethe no Teatro Municipal de Almada.

Nome maior do romantismo, Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), apaixonado pela antiguidade clássica, recuperou o mito de Ifigénia, sacerdotisa da deusa Diana escrito originalmente por Eurípedes com o objectivo de reflectir sobre o final do século XVIII, palco de grandes transformações políticas e culturais na Europa e repensar o renovado papel do homem no mundo em mudança.

“Ifigénia na Táurida”, uma das encenações mais aclamadas pela crítica em 2009 dirigida por Luís Miguel Cintra a partir da recriação poética de Frederico Lourenço com Beatriz Batarda à frente de um elenco composto por cinco actores numa narrativa emotiva entre Ifigénia, que todos acreditam estar morta, e os seus irmãos, a quem ela acabará por salvar a vida esteve em cena no Teatro Municipal de Almada entre os dias 22 e 26 de Setembro.

A peça conta a história dos descendentes da família de Tântalo, sobre quem pesa uma maldição. Ifigénia é filha de Clitemnestra e Agamémnon, rei de Micenas (ou Argos) que Diana salvou da morte quando o pai a queria oferecer em sacrifício. Desde então vive na Táurida como sacerdotisa de Diana onde permanece na tristeza de não saber o que foi feito dos que lhe eram mais próximos.

Sem nunca ter revelado a sua verdadeira identidade, Ifigénia resiste ao interesse do Rei Toas, (Luis Miguel Sintra) a quem revela finalmente o segredo que pesa sobre a sua família. Toas aceita a verdade e não desiste de conquistar a sacerdotisa, porém, ela nada sente além de pura gratidão.

É então que chega à Táurida, Orestes, o irmão de Ifigénia, que desconhece por completo o seu paradeiro. Atormentado e próximo da loucura após vingar a morte do pai assassinado pela mãe faz-se acompanhar pelo seu amigo Pílades a fim de roubar a estátua de Ártemis, mas acaba por ter a oportunidade de resgatar a irmã – após esta lhe salvar a vida – e regressar à Grécia para limpar a sua geração da maldição divina.

A revisão do mito proposta por Goethe apresenta um texto filosófico profundo que aborda temas actuais como a defesa da paz, a harmonia nas relações humanas e a renovação da ética e das consciências.

As máximas de vida adquirem força e transformam o texto num intenso exercício de reflexão sobre o conceito de humanidade, a relação dos homens com os deuses, a tensão entre a ideia de destino e a liberdade, e a própria condição das mulheres cuja fragilidade transformada em força por meio de sensibilidade, temperamento e fé pode reconciliar o futuro entre os homens e criar um mundo mais humanizado.

Numa produção do Teatro da Cornucópia, esta encenação contou com as magníficas interpretações de Luís Miguel Cintra (rei Toas e encenador da peça), Beatriz Batarda (Ifigénia), Vítor d’Andrade (Pílades), Paulo Moura Lopes (Orestes) e José Manuel Mendes (Arcas). Com cenário e figurinos da responsabilidade de Cristina Reis e desenho de luz a cargo de Daniel Worm D’Assunção. A peça para violoncelo solo de Hans Werner Henze, Sérenade (1949), interpretada por Emmanuelle Bertrand, acrescentou maior tensão dramática a momentos chave do espectáculo.



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