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Marginália ou o Epílogo

Exposição de Ana Luísa Ribeiro até 18 de Março no Museu da Electricidade.

“(…) Haviam sabido despertar em mim o hábito e o gosto da leitura. E, com eles, um desejo maior: o de escrever.”

Mário Dioníso

Numa tarde soalheira de Domingo, eles não são excepção. Fogem de Lisboa centro, como o diabo foge da cruz e, cada vez mais próximos do seu destino, vêem erguer-se a cor vermelha alaranjada do tijolo e sabem que chegaram. À volta: pessoas que conversam, passeiam, correm ou pedalam. Entram. Introduzem-se à exposição numa breve leitura e discutem o tema.

Ela diz escrever sobre o que vê – o rapaz que acaba de passar aos ziguezagues na sua bicicleta e, simultaneamente, sibila uma espécie de música; a senhora sentada ao canto da esplanada que, enquanto bebe o café, sorri com os olhos. E também sobre o que lê e divaga. Outros apenas escrevem sobre o que directamente conhecem ou experienciam. A escrita, sim!, essa forma privilegiada de transmitir coerentemente o que por vezes a oralidade não permite. Rabiscar pensamentos, epifanias, palavras largadas ao vento ou frases mudas presas no imaginário. Tanto faz. Tudo é matéria para umas linhas, concluem.

Quantos de nós já não sublinhámos, rabiscámos, pusemos pausa, desenvolvemos ideias que outros tiveram? No mesmo suporte, minuto, linha? ‘As mesmas imagens, diferentes observações’. A importância do que à beira, mas não à margem, é anotado. Marginália.

Vermelho, vermelhaço, vermelhanço, vermelhusco, vermelhão
Uns falam com outros. Mais com uns, do que com eles próprios. São semelhantes, supõe-se. Sombras de eles mesmos às vezes visíveis. Crescem do seu movimento. Da ‘arte de ser humano’. E alguém vê como real, com maior ‘justeza’, a força de ter ficado embriagado.

Verde esperança
Em geral, ‘a vontade deve ser determinante’ na forma como se experencia a natureza. Encontrar esse pedaço de mundo sensível e aplicá-lo à lei, ao juízo da razão e à sua disposição para identificar referências em toda a parte como forma de fugir para outro lado. Pura intuição.

Azul. I’m twenty two, I’m feeling blue
‘Compreendeste a palavra totalmente’? ‘Cinco sensações’ exponenciais, ‘bastante características da busca da’ velhice. E o que acontece quando nos desligamos e apenas ouvimos o que nos interessa, uma palavra? Acção/reacção. Deparamo-nos com a verdade e compreendemos.

Na exposição de Ana Luísa Ribeiro – prémio Amadeo de Souza-Cardoso (2009), há textos históricos, arcaicos, eruditos ou de divulgação, modernos ou contemporâneos, rabiscos e pequenas notas, um pouco por todo o espaço. No centro da arena o indivíduo que, perante uma mesma obra, reage de forma diferente.

Convidamo-los a passar pelo Museu da Electricidade, entrar e desfrutar das enumeras possibilidades de leitura e múltiplas perspectivas com que a Márginália nos brinda, até 18 de Março de 2012.



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