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“O Substituto”

“Nunca me senti tão desligado de mim mesmo”

“Detachment” de Tony Kaye é um drama protagonizado por Adrien Brody. Este representa um professor substituto, o professor Henry Barthes, que lecciona durante três semanas num liceu desconcertante. Convém recordar que Tony Kaye realizou o fenómeno do neo-nazismo, “América Proibida”, e que Adrien Brody protagonizou o inesquecível drama “O Pianista”, de Roman Polanski.

Estreia em Portugal a 15 de Novembro (ganhem convites para a Ante Estreia AQUI) e à primeira vista o argumento parece não trazer nada de novo. Relembra o típico drama que se resume à relação entre professores desesperados e alunos indisciplinados já muito usado e abusado. Enganem-se. A narrativa é existencial e perturbante, diferente do habitual.

A palavra “Detachment”, que dá nome ao título original, representa um estado emocional de incapacidade de conexão e distanciamento mental, situação psicológica latente em todo o filme. Henry Barthes, o professor substituto, chega à conclusão que não é uma pessoa, que não está presente no mundo e que se sente vazio de alma. É uma tragédia existencialista, sobre as fragilidades e susceptibilidades humanas. “Estamos à deriva no mar, sem bóia, nem segurança”.

Os restantes professores também apresentam mentes decrepitas. A frustração apodera-se deles, uma frustração provocada pelos alunos, que os leva à loucura, fruto da irresponsabilidade ocupada pelos pais na educação dos filhos. As deficiências do sistema de educação são aqui exploradas e acusadas.

O protagonista pondera sobre a sua existência enquanto anda pela rua ou se senta num sofá. Reflecte sobre as profundezas escuras do subconsciente e percorre os terrores ocultos da alma humana. Há uma partilha ritmada de pensamentos e ideias com o espectador, em que é evidente o tormento e a complexidade dum decadente estado mental.

A acção principal do filme é interrompida por outros dois formatos dimensionais assumidos pelo protagonista. Por um lado, temos os flashbacks referentes ao trauma de infância, por outro, um discurso introspectivo e deprimente na primeira pessoa, uma espécie de monólogo.

O uso de vocabulário violento e ordinário é explícito e intensifica o caos generalizado; engloba adolescentes revoltados que seguem o caminho da destruição. É com Érica, uma prostituta adolescente, que estabelece uma forte relação, mantém com ela uma amizade cheia de cumplicidade e instinto de protecção. Outras mulheres surgem no filme e na vida de Henry, com mais ou menos protagonismo, como é o caso de Meredith, uma aluna que usa a fotografia e a pintura como expressão, sofre de fraca auto-estima e consequentemente de ideias suicidas.

O clima é pesado e o fim trágico. Cupcakes, sangue, impotência e culpa são derramados no pátio da escola. Há dias em que temos o tempo limitado para os outros, dias sombrios e escuros. Tem-se, então, o cenário propício para despertar a depressão em qualquer pessoa, mas é também um filme com força suficiente para conseguir inúmeras nomeações e alguns prémios.



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