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Red Bull I-Battle

A 19 de Dezembro de 2008 teve lugar no Music Box a primeira I-Battle de sempre em terras lusas. Reza a lenda que foi assim...

Sexta-feira é a noite de festa por excelência. Sai-se porque finalmente chegou ao fim a semana laboral e começam os dois santos dias de repouso, lazer, divertimento, folia, prazer e what-ever-else-you-like-to-do. Sai-se porque “há que tempos não se sai” ou porque se saiu na noite anterior e voltou-se a casa com vontade de mais. Sai-se para ver este ou aquele amigo, ou porque “se ele vai eu também vou”. A quadra natalícia em particular recheia as gentes de um intenso desejo de encontrar outros, misturar-se e fazer a festa. Os álibis são muitos e multiplicam-se mas nada melhor para a festa que uma ideia nova para deixar as gentes em euforia e levar o povo a mergulhar no gelo nocturno e dançar, pular, gritar, festejar e, acima de tudo, divertir-se! É isso mesmo que pouco depois da meia-noite encontramos à entrada do Music Box: uma casa a encher-se de gente que vem para se divertir e fazer a festa.

No meio do “calmo caos” de um início de noite, não se vê uma pessoa calada entre o público, o bar e os que fora se agregam à porta fugindo ao frio. De um lado para o outro, alguns mais vistosos que outros, os i-poders da noite movem-se perdidos em conversas com claques de amigos, os copos vindos do bar, as câmaras da Red Bull e alguns olhares furtivos ao pequeno contentor de hits sacado dos bolsos para revisões de último minuto. Na arena, um verdadeiro ringue de box montado em torno do mixer onde o som digital disputaria os decibéis da noite. Por trás, projectada na tela, a contagem decrescente: 18 minutos e 37 segundos para o início dos combates.

Reduz-se o volume da música e ao palco sobe a única dupla que aí permaneceria toda a noite. Marga e Tekilla explicam as regras do jogo e demonstram os equipamentos para aquecer as goelas do público. “Oito equipas de dois elementos combaterão alternando 4 snipets de 1.30 severamente cronometrados aos olhos do público, que no final elegerá o melhor duo com o melhor mecanismo de manifestação em absoluto: o barulho, rigorosamente medido com o sonómetro. O duo que obtiver maior volume em decibéis passa à fase seguinte, o outro… eliminado! No ringue vale qualquer hit para conquistar as gentes, e na pista de dança qualquer forma de fazer ruído; quanto mais melhor. Mixer e sonómetro devidamente testados, 5… 4… 3… 2… 1… de iPod na mão e gargantas em riste, vale tudo!

1ª assalto: AMOR vs Clube Socialismo Tropical – clássicos contra-tempos. Logo a abrir o serão, o palco torna-se cenário de um conflito geracional musical. Rigorosamente vestidas de branco e um quanto atrapalhadas com a tecnologia moderna, a dupla feminina exibe a sua emancipação com um sedutor teen look exaltando a sua colecção de infalíveis hits das 5AM. Venga Boys aquecem os ânimos, mas a resposta da dupla mais velha da noite é forte: beneficiando de uma maior experiência em lidar com a pista de dança, respondem ao espírito universitário com rápidas passagens entre clássicos do soul e do blues. Mente fresca e sabida que o público premeia com gritos e aplausos.

2º assalto: Bandidos vs The Scene – Ao segundo assalto da noite a luta fez-se séria. À esquerda os Bandidos mostram saber o que estão a fazer arrancando com um dos mais famosos riffs de guitarra de sempre, «Money for Nothing». A guitarra de Mark Knopfler transforma-se numa ameaça rítmica à la Justice, mas a dupla The Scene tem a resposta pronta. Com tranquila exuberância, disparam um beat seco que em poucos segundos se molda numa espécie de electro-kizomba com vozes latino-americanas. Tema completamente incógnito ao público mas de surpreendente eficácia. Os três pares de rounds que se seguem arrastam o Music Box numa cerradíssima luta entre a onda maximal imposta pelos rufias de t-shirt de alças e a cena e-dancy da dupla sunglasses. Termina o assalto com um público em êxtase elevando A Cena aos 115 decibéis.

3º assalto: Urban Feat Fab vs Spank Pod – Eles e elas… E ao terceiro acto vive-se em palco uma autêntico litígio matrimonial. À esquerda as Urban Feat Fab manifestam o seu descontentamento com o sexo oposto. Como quando elas se sentam em silêncio no sofá, camisola de gola alta, manta aos quadrados e uma faixa em torno com escrito “Fechado por greve”. Música de elas para elas. Algum romantismo no ar que acaba por exaltar os ânimos também de alguns deles. À direita, irreverente o resmungar lento e pesado do hip hop dos Spank Pod. Uma discussão acesa entre baladas e grandes clássicos da voz feminina contra o universo underground de ritmos espaçados e graves possantes. O público implacável elege a rítmica e pretere as harmonias sentimentais, eliminando a segunda de três duplas femininas.

4º assalto: Recycles vs Butterfly Soul Flow – A guerra do funk. No último encontro das primeiras eliminatória defrontam-se em palco duas parelhas mestres do groove e do funk. As b-girls mais ferozes de Lisboa arremessam beats potentes sobre os quais exibem as suas coreografias alternando-se ambas entre o iPod e breaks de dança aliciando o público. Eles por sua vez reciclam os mais ácidos componentes do velho funk e da electro recente, obrigando as break-dancers a acelerar o passo. Doze minutos de intenso groove, calor e muita dança dentro e fora do palco. Para surpresa de muitos e entusiasmo de todas as saias na sala, o supremo público decide reciclá-los a eles e levar às meias-finais a única dupla feminina.

A este ponto a festa no Music Box ecoava pelas velhos becos do Cais do Sodré com o público a competir com a potência das colunas de onde disparavam beats plásticos electrizantes que mantinham alta a sede geral de mais música, danças, batalhas e muito barulho, enquanto o ecrã contava já decrescente alguns minutos de pausa para a preparação dos semi-finalistas. Tomados de assalto o bar e o WC, à espera de uma cerveja ou de vez au le privet, trocam-se impressões sobre as duplas vencedoras e vencidas. Quem achasse que justiça tenho sido feita, quem tivesse visto os seus heróis injustamente eliminados. Só o soar do gongo de Marga repôs a ordem na sala para anunciar a reabertura das hostes no ringue do Music Box.

5º assalto: Clube Socialismo Tropical vs Butterfly Soul Flow – A bagagem histórica do Clube Tropical revelou-se mais uma vez sábia. Os grandes clássicos de todos os tempos contaminaram o público de uma boa onda que as Butterfly souberam aproveitar em seu favor. Pegando num público eufórico a dobrar John Lennon e Paul McCartney ao som de «She loves you» transformaram a vontade de cantar num desejo frenético de mexer as ancas, disparando ritmos em todas as direcções. Do funk africano e do break dance afro-americano chegaram aos batuques escaldantes do Brasil, obrigando a velha escola a recuar de malas às costas e garantindo assim uma prestigiosa e orgulhosamente aplaudido presença feminino na final. Faltava só saber quem defrontaria as selvagens borboletas.

6º assalto: The Scene vs Spank Pod – Se por um lado os The Scene demonstraram que o do Music Box é um público amadurecido e habituado a sonoridades clubby alternativas, os Spank Pod haviam dado cartas exibindo a força do hip hop no que respeita à movimentação das massas. Tinha início um dos mais intensos braços-de-ferro da noite. A cada golpe desferido pela Cena viam-se corpos ondulando com movimentos corporais que iam além do sexy, mas as respostas do underground metiam as gentes a saltar como uma única massa orgânica. Hits pasto-disco coreografados pela dupla arabo-mexicana subornando o público com metafóricas pastilhas elásticas, enquanto a dupla de fato de treino e calças largas martelavam os ares de Daft Punk e miniaturas cartográficas de iPods. Apoteose no ringue e as goelas do público a baterem os recordes de ruído no cais-do-sodré. A estratégia rítmica dos The Scene tocou visceralmente os corpos dos presentes que dançaram a gosto sobre os seus quatro curtos snipets, mas foi a força crua do beat samplado dos Spank Pod que levou a melhor conquistando uma pétala ao lado das borboletas.

Passava já das duas da manhã. The Scene e Spank Pod trocavam animadíssimos abraços abandonando o palco e o Music Box transformara-se numa autêntica bomba relógio. A disputa entre hits e beats contaminara de entusiasmo cada um dos presentes. Público, apresentadores, i-poders, as moças no bar, as gentes da organização, o Vj e o técnico de som, todos trocavam animadamente impressões, sorriam, bebiam e continuavam as suas conversas apontando para o ringue vazio sob os focos luminosos. Trocavam-se expectativas e previsões sobre o futuro vencedor da noite, enquanto se cantarolavam aqui e ali trechos da história da música pop. Quando a última contagem decrescente tocou o zero espalhara-se pela sala o suspense e aplaudiu-se a subida ao palco das duas duplas finalistas.

7º assalto: Butterfly Soul Flow vs Spank Pod, the final act – O derradeiro combate tornou-se num tudo por tudo pela aclamação final. Defrontavam-se paradoxalmente dois velhos aliados, o hip-hop e a break dance. Enquanto as b-girls ameaçavam os machos arremessando os ritmos quentes do kuduro e do samba, a dupla de Djs ripostava com a samplagem de beats históricos misturados com os mais famosos clássicos de sempre. De um lado e outro do ringue cada novo premir do “Play” disparava o público num coro em uníssono ou numa dança colectiva tribal. Elas provocaram-nos cantando-lhes «Prostituto» e eles responderam seguros que «We are the champions»… E, por fim, o incorruptível, soberano e exigente público pronunciou-se, mostrando que era capaz de vencer qualquer sistema de áudio do mundo, e, com um ensurdecedor acumular-se de 128 decibéis, aclamou as Butterfly Soul Flow como vencedoras oficiais da primeira I-Battle Portuguesa. A vitória lançou a parte feminina do público numa onda de festejo galvanizado, que acabou por excitar a parte masculina dos presentes e de consequência transformou o resto da noite numa das mais animadas e quentes festas do cais-do-sodré deste gelado inverno de 2008… so far!

Contas feitas, no final da noite ficou demonstrado:

a) que a tecnologia desenhou para a sociedade do século XXI um cenário em que virtualmente qualquer um de nós, em qualquer momento, e em qualquer local do mundo pode fazer a festa necessitando somente de uma minúscula máquina de bolso;

b) que ao fechar deste aceleradíssimo 2008 o Music Box é de facto um dos mais puros laboratórios experimentais da noite Lisboeta;

c) que, quando a Red Bull se levanta para organizar qualquer coisa nesta cidade, então temos festa garantida! Parabéns à organização, à casa e aos oito duos que animaram a primeira, de uma longa série de I-Battles em terras lusas. Promessa de Red Bull!



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