Johannes Krieger

Reunion Big Jazz Band

À conversa com Johannes Krieger, músico e actual responsável pela direcção da Reunion Big Jazz Band

A Reunion Big Jazz Band fez um showcase no Onda Jazz para apresentar o seu primeiro trabalho, que será editado em Setembro. As primeiras impressões são boas e o prenúncio de que esta big band vai dar que falar.

Estivemos à conversa com Johannes Krieger, músico e actual responsável pela direcção da Reunion Big Jazz Band, que nos falou do trabalho que está a desenvolver nesta formação e também de outros projectos em que está envolvido.

“Acho que a música precisa sempre de uma parte que não é explicável teoricamente, necessita sempre de um pouco de mito, duma coisa mística.”

Como caracterizas o projecto Reunion Big Jazz Band?

A Reunion Big Jazz Band é uma big band com uma instrumentação tradicional de trompetes, trombones e saxofones. Tentamos fazer composições e arranjos próprios, mas sempre no género do jazz e, com concertos regulares, estamos constantemente a mudar o repertório. Assim, a banda fica com “mais pica” para aprender novas músicas. É um trabalho bastante desafiante, porque não há muito tempo para ensaios ou para preparar as novas músicas, e é necessária bastante concentração de todas as pessoas envolvidas. A Reunion não dá importância só às composições, mas também à improvisação solística que tem um valor muito grande nesta formação.

Fala-nos um pouco sobre a história da Reunion Big Jazz Band

A big band foi fundada em 2003 como uma banda onde se misturam músicos profissionais e amadores, e que ensaiava sempre semanalmente. O primeiro dirigente foi o Claus Nymark, que esteve até há um ano e meio atrás. Depois comecei eu a dirigir. Entretanto, fizemos muitos concertos. Houve uma temporada, não sei por quanto tempo, uns dois anos, entre 2008 e 2010, em que a banda tocou semanalmente no clube Onda Jazz. Penso que estes concertos regulares deram muito ímpeto à banda e esta desenvolveu-se mais. Praticamente fez-se um reportório novo. A banda cresceu, tocaram-se arranjos conhecidos, dos clássicos das big bands, dos standards, sempre acrescentando mais arranjos ou originais da banda. O Claus já tinha começado isso. Mas, nesta história de dirigir, também temos o Dan Hewson, e agora nós os dois praticamente ocupamo-nos do reportório da banda. Às vezes tocamos arranjos de outras pessoas. Recentemente arranjei músicas de frevo, do Brasil, um estilo de carnaval de Pernambuco. Aí também têm uma big band com música tipo carnaval, muito mexida, alegre. Temos outros clássicos de outro estilo que é parecido com jazz, mas não o é, e que queremos integrar no reportório da banda. O Dan e eu escrevemos arranjos de música brasileira, eu escrevi um ou dois tangos, temos também música afro-jazz, temos um reggae… É tudo uma fusão de música ligeira actual.

Actualmente diriges a Reunion Big Jazz Band. No entanto, esta já teve várias direcções. Claus Nymark, como já referiste, Adelino Mota e Vasco Agostinho. É possível assegurar o mesmo espírito, a coesão e os objectivos da formação com diferentes visões e formas de pensar?

Acho que até com o mesmo dirigente o conceito muda com o tempo. O dirigente influencia claramente o reportório de uma banda, mas o que também é muito importante são os músicos. Os músicos agora são mais jovens, têm mais vontade de fazer coisas recentes, pelo que não se toca tanto o reportório clássico como antigamente. Portanto, essa coisa do conceito da banda vem obviamente do dirigente, mas também das pessoas que fundaram a banda, como o Fernando [Soares], o Manuel Lourenço e o Francisco Costa Reis, que agora vive no Luxemburgo. E dos músicos, e duma grande interacção entre todos. Por exemplo, quando faço um arranjo de uma nova música vejo sempre quem são os músicos desse momento ou quem poderia ser um possível solista. Eu também penso desta forma.

Acho que o espírito da Reunion Big Jazz Band sempre foi bastante aberto. Nove anos é muito tempo e neste período houve uma evolução bastante grande. No início do projecto tocaram-se mais arranjos simples de standards de jazz com uma linguagem muito típica, como por exemplo as músicas de Count Basie. Numa segunda fase fizeram-se arranjos de compositores mais modernos, como por exemplo Pat Metheny ou Quincy Jones, ou alguns arranjos da Mingus Big Band. No estado actual temos um repertório completamente escrito por membros da banda com um destaque em música afro, latina e fusão. No futuro gostava de experimentar novos conceitos de notação, por exemplo notação gráfica ou instant composing em alguns arranjos, mas sem deixar a sonoridade actual.

E o que significa este projecto para ti?

Este projecto é para mim muito interessante porque há vários anos que comecei a escrever arranjos de big band e às vezes ia tocar ali um, tocar ali outro. Antigamente escrevia tudo à mão e não fiz tantos arranjos porque exigia muito trabalho. Mas depois comprei um computador e fazia as coisas muito mais depressa. O número dos arranjos aumentou. No momento antes de dirigir a Reunion Big Band não estava frustrado, mas pensei, fogo, escrevi muitos arranjos para big band, mas não tenho nenhuma big band fixa onde possa tocar. Portanto, para mim, foi muito bem-vindo, foi uma muito boa oportunidade começar a dirigir a banda e também a experimentar o reportório que tinha escrito já durante anos. Agora continuo a escrever.

Mas o conceito de big bands não é novo para ti, uma vez que também tens o projecto Tora Tora Big Band…

Sim! Tora Tora Big Band também é uma banda que tem dez anos, mas parámos durante dois anos e recomeçámos em Outubro passado, e neste momento vamos lançar outro disco.

E a VGO [Variable Geometry Orchestra]?

Ah, essa foi uma banda onde eu sempre gostei de tocar e porque nunca se sabe… Também gostava por causa de alguns elementos, tipo músicas improvisadas conduzidas. Por exemplo, existe aqui também esse workshop em Peniche, chamado MIA [Encontro de Música Improvisada da Atouguia da Baleia], um encontro de música improvisada. Há dois anos dei lá um workshop e perguntaram-me se podia dirigir todos os músicos. Fiz uma cena só com sinais, sinais improvisados que não eram combinados com os músicos. Eram formas improvisadas e cada um podia construir a sua fantasia. Podiam imaginar o que eu lhes transmitia, ou podiam até rejeitá-lo. Era uma decisão do músico. Correu bastante bem e gostava de continuar, talvez com a Reunion, embora os músicos não tenham talvez ainda a experiência… Mas acho que podemos ter, podemos tentar, eles têm vontade para isso, de misturar esses dois conceitos.

Por exemplo, o Gonçalo Prazeres já tem alguma experiência

Sim, existem alguns músicos lá que vêm mais até desta onda.

A combinação entre a veterania e a juventude é um dos pilares para a coesão desta formação. Que pensas disto?

Acho que a idade não é tão importante. Eu comecei a tocar em big bands com 12 anos, por exemplo. Depois entrei com 15 anos numa big band da região [Alemanha] onde tocava o meu pai, e já se dizia, temos aqui pai e filho… E mesmo hoje em dia nas big bands amadoras é muito normal ter músicos mais velhos e mais novos. A minha primeira experiência com big bands foi com o meu pai e já havia várias gerações na mesma banda. A big band é um estilo já antigo e até é bom que haja velhotes na banda porque eles viveram a música em primeira mão, e nos jovens já não temos tanto esta ligação directa. Nesse tempo era uma música nova, era como os Iggy Pop, ou como os títulos do Top Forty. Hoje em dia não.

Na Reunion Big Jazz Band a diferença entre as idades não é demasiado grande. Sim, existem alguns jovens, mas poucos músicos maduros com uma certa idade. Como o jazz clássico é uma música bastante “velha”, a coexistência de músicos jovens e músicos mais velhos é muito comum.

Já passaram e integram a Reunion Big Jazz Band inúmeros músicos que participam em muitos projectos de relevância no meio jazzístico português. Que contribuição aportam estes músicos à Reunion?

Acho que uma big band sempre tem duas vertentes; a parte arranjada e a parte da composição. E depois também tem uma grande parte de solos. E vêem-se músicos que tocam noutras bandas de jazz e que têm o seu estilo de jazz característico e podem contribuir com isso nos solos. Temos actualmente aqui o Tomás Pimentel, o Alexandre Andrade, o Gonçalo Marques. Nos saxofones temos o Gonçalo Prazeres, o João Capinha, o Francisco Andrade. São jovens que vêm de várias bandas diferentes. Na secção rítmica também, o Dan Hewson, o Celso Soares, e os dois bateristas, o Alexandre Alves e o Rui Pereira, e também os baixistas, o Gonçalo [Leonardo] e o André Rosinha, que vêm cada um de bandas diferentes. Alguns destes músicos contribuíram com arranjos e composições. Outros contribuem para o som da banda quando improvisam, e a improvisação é sempre uma parte muito importante. Aqui nesta banda estes músicos, que nunca improvisaram, têm a possibilidade de dar os primeiros passos na improvisação.

E qual é o teu método de trabalho com a Reunion?

O meu método… Boa pergunta. Nem eu sei! [risos] Mas tenho método, deixa ver… Eu tento fazer muitas músicas novas, que haja uma certa diversificação nas músicas. Isso quer dizer que temos que rodar um reportório diferente. Pelo menos metade das músicas em cada concerto vai ser diferente. Em termos de ensaios, às vezes o tempo fica um pouco apertado, mas eu tento fazer as músicas integradas para que percebam a ideia principal do ritmo e do estilo.

O teu trabalho caracteriza-se por um grande ecletismo. Participas em várias formações, que vão desde as big bands a projectos de música experimental, passando pela música étnica, pelo folk, ou pela música africana: fala-nos um pouco sobre o teu trabalho, os projectos em que estás envolvido

Acho que o meu trabalho de qualquer forma sempre tem no centro o jazz, mas cada vez estou a afastar-me mais do jazz e a apanhar os estilos que são vizinhos ou parecidos com ele, que tenham influências do jazz ou que até deram influências ao jazz. Pode ser qualquer coisa, podem ser muitos estilos diferentes, ou até fusões novas. A ideia é criar sempre coisas novas também. E acho que isso sempre funcionou; os estilos novos sempre nasceram com fusões. Se nós analisarmos a história de estilos de música foi sempre assim.

Em que formações estás envolvido neste momento?

Tenho principalmente o Tora Tora Big Band. Depois, em formação pequena, um quarteto chamado Chibanga Groove. Estou no Interlúnio com o Ricardo Freitas, estou com uma outra banda que faço com os estudantes em Évora, o Jungle Jazz Orchestra, que é uma coisa entre a Reunion Big Jazz Band e a Tora Tora Big Band, mas com uma vertente muito diferente, mais livre e mais rockeira. Depois tenho a orquestra TODOS, que é uma orquestra de músicas de várias nacionalidades com um estilo de uma fusão de música do mundo, na verdade. Esta banda nasceu no Festival TODOS, que acontece todos os anos no Martim Moniz.

Nasceste na Alemanha e vives em Portugal. Fala-nos um pouco do teu percurso de vida e da tua formação

Sim, acabei a escola secundária na Alemanha e quis viver fora do País. Então, primeiro fui viver para a Áustria e estive lá ano e meio, e depois fui para a Holanda estudar música. E, como não foi suficiente, instalei-me aqui em Portugal. Vim com o objectivo de conhecer uma cidade que tem vários estilos, vários imigrantes, tem muita influência de África, do Brasil e de vários países europeus. Como isso correu bastante bem, instalei-me aqui.

E a tua formação?

Estudei trompete e arranjo na Áustria e na Holanda, nos conservatórios, estive numa escola superior. E acho que a coisa mais importante é que toco desde pequeno, desde os dez anos, mais ou menos… Toquei em big bands e bandas de jazz. Acho isso muito importante para o percurso…

Mas tens formação em jazz?

Sim, exacto. Quem me deu isso foi o meu pai, que me levou em miúdo a concertos de Dizzy Gillespie, de Tom Harrel, de Freddie Hubbard. Tive a sorte de ver algumas coisas e músicas que muitos jovens já não verão.

Também és docente universitário. Que balanço fazes do ensino do jazz no nosso país?

Acho que o ensino universitário é muito importante, mas não é tudo. Acho que o que falta principalmente é uma base, ter aprendido música enquanto jovem, antes de ir à universidade. Sem dúvida que aqui nas universidades se faz um bom trabalho, o que é muito importante, mas desejava um pouco mais de profundidade…

Ou seja, que as escolas secundárias os preparassem

Exacto. Talvez não as escolas secundárias, mas o que é necessário é que existam mais escolas de música que façam uma boa preparação. Por acaso, existem essas escolas, mas acho que não vão lá muitas pessoas.

Achas então que os alunos chegam à universidade mal preparados?

JK: Talvez alguns. Em geral, nem tenho muitos alunos que vão estudar. Em primeiro lugar, não há muitos músicos de jazz, e depois há um pouco esta falta de ensino básico de jazz. E depois há uma escola superior.

O academismo é bom, faz bem?

Epá, sou muito académico mas estou sempre a evitar o mais possível isso. Gosto muito de teorizar e de fazer teorias, de sistemas, tipo sistemas matemáticos para música. Mas acho que a música tem os dois lados. Tem a teoria e tem uma prática que não tem nada a ver com isso. Acho que precisa sempre de uma parte que não é explicável teoricamente, necessita sempre de um pouco de mito, duma coisa mística.

Pelo que vi e ouvi, tanto em termos musicais como de algumas opiniões, a Reunion Big Jazz Band está muito bem organizada, estruturada, tem um som muito clean, interessante e sobretudo agradável. Era isto que procuravam, para que só nove anos depois da vossa formação editassem o vosso primeiro trabalho?

Nós trabalhámos durante um ano, tivemos reportório e então o mais natural era gravar. O som da banda está sempre em desenvolvimento. Agora é mais clean, mas com arranjos mais experimentais o som vai ser mais “sujo”. Agora estamos nesta fase de estilo de uma fusão com world music, acho que é bom incrementar isso. O som limpo não é o parâmetro mais importante quando se grava um disco, mas é bastante importante. A razão de fazer a gravação só agora, depois de tantos anos, é por causa da quantidade de arranjos próprios escritos por nós. Porque a banda tocou principalmente arranjos clássicos conhecidos não houve tanta necessidade de gravá-los, porque já foram gravados pelas inúmeras big bands. Agora temos um repertório original tão grande que seria possível gravar um próximo disco já em breve.

Quais são as influências musicais da Reunion?

É muito difícil dizer… As influências são de big bands ou music ensembles baseadas no jazz mas com outros estilos dentro de si. Por exemplo, do Brasil, a Banda Mantiqueira, os Spok Frevo Orchestra. A Paris Jazz Big Band. Também de uma certa forma Maria Scheneider, talvez o Mingus Big Band, Vince Mendoza também, Sun Ra.

A Reunion tem um repertório all round, estamos a tentar apanhar todos os terrenos diferentes e estilos musicais que estão ligados ao jazz. Ultimamente fizemos muita música com ritmos de afro- jazz, latina e com influência de fusão dos anos 80 e 90. Não temos uma banda que nos influencia, mas sim múltiplas.

E as tuas? Além do teu pai, que foi uma grande influência para ti.

Sim, talvez originalmente. Talvez uma grande influência seja Kenny Wheller, Don Cherry e Woody Shaw. Gosto deles enquanto trompetistas e dirigentes de uma banda. Cada um tem o seu estilo particular de escrever ou de dirigir a banda.

O tema «Ouija» chamou-me especialmente à atenção. É uma composição muito bonita, organizada, bem estruturada e o solo de João Capinha está brutal. Que pensas disto?

É um arranjo do Dan Hewson (ele vem de Londres), num estilo que parece Kenny Wheller combinada com música africana, ou afro-jazz, na verdade. É uma música que descreve muito bem o conceito da banda neste momento. E, claro, o João Capinha é um rapaz bastante jovem que entrou há pouco tempo aqui na cena portuguesa e tem muita energia.

Daqui em diante que se pode esperar da Reunion Big Jazz Band?

Vamos continuar desta maneira. Gostava de experimentar estas coisas à maneira de Sun Ra, mais improvisadas, mais barulhentas. Coisas alegres que talvez não tenham essa clareza tradicional das big bands. Estou a tentar abrir mais ainda o conceito da banda. A big band é uma massa de sonoridade, com uma maneira de escrever menos estrita, com mais individualidade. Talvez valha a pena experimentar essa direcção. Como disse antes, gostava de experimentar novas formas de notação musical.



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