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Samuel Úria @ São Luiz (29.04.2016)

Dar corda à inspiração

A bonita sala do São Luiz foi o local escolhido para apresentar ao mundo o novo trabalho de estúdio de Samuel Úria, denominado “Carga de Ombro”, e que é o quinto da sua carreira. Disco esse que foi distribuído por todos quantos adquiriram bilhete para este mesmo concerto.

E foi exactamente com o primeiro single deste disco que abriu a noite, dando corda às novas canções, que foram sendo intercaladas com registos anteriores, o que nos parece sempre mais positivo e atractivo do que limitar-se a debitar as novas composições em catadupa.

O novo disco começa a levantar voo com «Aeromoço», um tema dedicada a Bruno Morgado que serviu de inspiração para os acordes desta canção, conforme confidenciou Úria, e cujos dotes fez questão de sublinhar.

Das novas, seguiu-se-lhe «Repressão», que nos remeteu para o imaginário dos portuenses Clã, quer pelas melodias joviais dos teclados, quer também pelos diferentes jogos de vozes entre ritmos e sintetizadores fortes.

«Carga de Ombro» demonstrou plenamente porque é foi seleccionada para título do álbum, por ser uma canção fortíssima, com um refrão que derrete até o mais duro dos ouvidos.

«Vem Por Mim» é outra destas composições em que o autor carrega na sua faceta mais dócil, e que se entranham logo à primeira audição, muito à imagem do tema-título. Para reforçar o cunho mais suave da canção, desta feita apenas as vozes femininas do coro auxiliaram o cantor.

Depois de nos emprestar o seu «Lenço Enxuto», de forma tão poderosa que não nos admiraríamos que alguém necessitasse literalmente de um para secar alguma lagriminha, regressa a veia mais acutilante de Samuel Úria através de «Palavra-Impasse», relembrando os tempos em que tentava compor punk-rock tendo apenas à mão a viola da sua irmã.

«É Preciso Que Eu Diminua» será por ventura uma das canções mais inventivas do novo disco, com uma ginga tropical q.b. a compassar a maior parte do tempo.

Entre estas novas sonoridades foram ecoando temas seminais, como «Espalha Brasas», « Nem Lhe Tocava» ou « Não Arrastes o Meu Caixão», que nos ajudam a encaixar os novos elementos trazidos pelo conteúdo de “Carga de Ombro”. Até o viciante «Barbarella e Barba Rala» veio à baila, em boa hora.

O cicerone desta noite apresentou-se em palco com a banda anteriormente conhecida como Os Pontos Negros. Ressalve-se que, tal como é desejo de Samuel Úria, nós também fazemos votos para que os mesmos retomem esse projecto num futuro próximo!

Além destes músicos, Úria contou ainda com a potente ajuda de um coro de 8 elementos que já vem sendo presença habitual, quer nos seus discos, quer nas apresentações ao vivo. Coro esse que empresta ainda mais alma a certos temas, usando um travo indisfarçável de gospel, essencialmente àqueles em que o rock n’ roll não predomina tanto, chegando a ser fundamental para dar profundidade a temas como «Ei-lo».

Por falar neste tema, foi onde irrompeu uma das convidadas deste concerto, Selma Uamusse, que nunca precisa de muito tempo para arrebatar a plateia com a sua voz maravilhosa.

Antes de Selma já Samuel Úria tinha convidado Miguel Ferreira, responsável pela produção do novo álbum, que o acompanhou a meio do concerto em «Graça Comum» com um teclado que teve tanto de minimalista como de encantador.

Depois dos referidos convidados, o alinhamento principal terminou com «O Diabo», dando por instantes a ideia de que António Variações era o convidado seguinte em palco.

Para os encores, no plural porque foram dois, Samuel Úria refugiou-se nos discos anteriores, desfilando mais temas já conceituados do seu repertório, como o majestoso «Império» ou «Forasteiro». Destaque igualmente para o prelúdio colado a «Teimoso», onde Úria interpretou um excerto de «Kiss», não desperdiçando a oportunidade para homenagear Prince.

Para o final guardou um bis do tema-título absolutamente arrebatador: depois de perfilar com todos os músicos e coro para agradecer os aplausos, Úria desce do palco com toda a gente e entoa «Carga de Ombro» apenas com guitarra acústica, coadjuvado pelo ritmo marcado pelas palmas do público, enquanto atravessa toda a sala cheia de carácter do São Luiz até chegar ao hall de entrada da sala, onde todos os intervenientes no concerto permaneceram a cantar até que todo o público saísse da sala.

Uma autêntica guarda de honra para nos encaminhar até casa. Ou até ao bar.

Samuel Úria confessou querer fazer um esforço para falar menos ao longo dos concertos, algo que veementemente recriminamos, dadas as suas tiradas sempre certeiras e quase sempre a transbordar sarcasmo. Mas, mesmo que comece a falar menos, a sua música diz cada vez mais.

Alinhamento
:

– Dá-me Corda

– Espalha Brasas

– Aeromoço

– Nem Lhe Tocava

– Repressão

– Carga De Ombro

– Vem Por Mim

– Graça Comum

– Lenço Enxuto

– Palavra-Impasse

– É Preciso Que Eu Diminua

– Não Arrastes o Meu Caixão

– Barbarella e Barba Rala

– Ei-Lo

– O Diabo

(encore)

– Essa Voz

– Teimoso

– Império

– Forasteiro

(encore 2)

– Lamentação

– Carga de Ombro



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