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Tinta nos Nervos

Entrevista com Pedro Vieira de Moura

No passado dia 10 de janeiro inaugurou a exposição “Tinta nos Nervos”, no Museu Colecção Berardo, comissariada por Pedro Vieira de Moura. Estivemos à conversa e colocámos numa vinheta os impulsos, estímulos, volumes e espaços de uma ideia-acção que envolve as melhores referências do panorama BD português. Vai estar patente até dia 27 de Março e é motivo para Ver, Encontrar, Dialogar e Experimentar (não, necessariamente, por esta ordem).

Pedro Vieira de Moura, é professor, ensaísta, investigador e escreve sobre banda desenhada desde 1999. Inclusivé, a sua tese de mestrado é sobre BD.

Esta é a terceira vez que se envolve numa experiência curatorial desta envergadura. Em 2007 organizou uma exposição sobre BD experimental que foi apresentada no Festival BD Amadora e posteriormente nos EUA.

Em 2009, dedicou o olhar a um grupo de autores de Lisboa.

A sua discursividade é inevitavelmente académica e foi neste sentido que apresentou a redescoberta e reactualização de 41 autores portugueses ao Museu Berardo. A aceitação, de mostrar um retrato da BD portuguesa, foi imediata: (…)“a escolha dos autores será sempre incompleta, até porque houve uma limitação de tempo. Não foi feita por exclusão nem por escolas. Foi uma escolha contemporânea (…) a exposição é, assumidamente, pessoal (…)”

Infelizmente a Banda Desenhada, apesar de ter uma oferta suficientemente ampla para seduzir um leitor, não tem projecção para chegar ao público em geral:

“(…) a BD não tem o mesmo diálogo no mundo das artes. Não tem um espaço pelo preconceito que os autores sejam infantis ou pouco intelectuais. A BD vive na invisibilidade e ainda é “vista” com uma perspectiva social menorizada (…)”

“(…) Há uma desatenção por parte da imprensa. Se estes canais operassem de maneira diferente a sua difusão seria maior.

O património de banda desenhada português é, por vezes, esquecido. Se não fosse o trabalho de alguns investigadores específicos, que se dedicam ao estudo – não remunerado – ficava, efectivamente, no espectro dos poucos interessados. É um esforço hercúleo. O mesmo poderíamos dizer sobre as artes plásticas ou o cinema. A BD está abaixo do radar crítico(…) citando Art Spiegelman (…) Por exemplo, estou, neste momento, envolvido num projecto que se chama Os 1000 Livros de BD Para Ler Antes de Morrer – é um projecto inglês e só vai entrar um livro português, apesar de vários terem sido propostos. É pouco!!! (…)”

“Os autores portugueses têm uma qualidade idêntica à dos autores internacionais.”

Pedro Moura pede ao público que não diga: “eu não gosto de banda desenhada”. Pensem, antes, em dizer “eu não conheço banda desenhada. Será que existe alguma coisa que me interessa?”

Até final do século XX, o mercado editorial direccionado para a banda desenhada, em Portugal, era preenchido pela publicação de álbuns franco-belgas. Com o crescimento do mercado editorial e canais de distribuição, a BD foi beneficiada o que permitiu um lugar nas livrarias e nas nossas vidas: – “ a banda desenhada é uma linguagem com vocação tão plural como qualquer outra” (V.A, Tinta nos Nervos, Museu Colecção Berardo, 2011, Lisboa)

Surgiram, assim, projectos editoriais que permitiram a valorização de autores e descoberta de novos traços e perspectivas. Movimentos como a Polvo, a Pedranocharco ou a Chilli com Carne tomaram uma porporção orgulhosa. Não obstante, as dificuldades e circunstâncias do mercado editorial fizeram com que os autores portugueses percorressem caminhos diferentes e alternativos para chegar ao público.

Para que a projecção tenha um longo alcance, a memória tornou-se uma necessidade inevitável (servirá, esta máxima, para várias linguagens ou atitudes artísticas). Podemos partir do princípio da intencionalidade e, deste modo, extraír vida da linguagem artística… e Eis que a imagem se torna no carácter da beleza deste diálogo aos quadradinhos.

Fotografia por Susana Pomba



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