22º Festróia

O rescaldo da 22º Festróia.

O FESTIVAL

Existem dois tipos de festivais de cinema: os que tentam apresentar uma mostra de filmes o mais diversificada possível, dentro de um tema em comum; e os que tentam apresentar em retrospectiva uma série de filmes que acabam por ser parte integrante de um conjunto. O Festróia faz parte do primeiro grupo, um festival que pretende dar a conhecer o máximo de filmes provenientes de países com pouca tradição e exposição cinematográfica, cuja produção não vai além dos trinta filmes por ano.

Confesso que gosto mais dos festivais do outro grupo, apenas por um motivo: dão a possibilidade de ver todos os filmes, mesmo que isso seja humanamente impossível. Quanto ao Festróia, distribui as diferentes secções por duas salas – o Fórum Luísa Todi e o Auditório Municipal Charlot –, com cinco sessões diárias sobrepostas. Assim, temos uma tarefa hercúlea perante o programa, sublinhando o que queremos ver, sacrificando uns filmes por outros e tentando apanhar outros nas respectivas repetições. O que não deixa de ter o seu prazer, de uma certa maneira.

Mas é por isso que se pede uma terceira sala de cinema em Setúbal, para que se possam repetir o máximo de filmes. Nisto concordo; o que não concordo é se a terceira sala vier aumentar a lista de filmes exibidos. Então aí passam a ser demasiados filmes para uma só pessoa…

Mas vamos ao que interessa: a 22ª edição do Festróia, o Festival Internacional de Cinema de Setúbal, que decorreu na primeira semana do passado mês de Junho. Este ano, o certame bateu todos os recordes, tanto em número de filmes apresentados, como no de países representados. O público parece ter respondido ao repto, tal foi a afluência ao longo das sessões, mas parece que ainda muito boa gente continua a não ter bem a noção da importância do Festróia no panorama cinematográfico internacional.

De facto, o Festróia é, actualmente, um dos certames mais prestigiado e reconhecido em todo o Mundo. Não é por acaso que a edição deste ano pôde atribuir o prémio CICAE, importante galardão atribuído pela Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio. Outra prova da projecção internacional do Festróia foi a presença constante da maioria dos realizadores dos filmes apresentados, alguns dos protagonistas dos mesmos e vários jornalistas dos meios de comunicação estrangeiros.

No final, o balanço foi claramente positivo. As sessões estiveram sempre bem compostas (com as naturais excepções das sessões das 11 da manhã) e a noite de abertura chegou mesmo a esgotar. Quanto à qualidade dos filmes é óptimo podermos ver um festival com quase duas centenas de filmes em que não há nenhum realmente mau; apenas filmes bons e menos bons.

OS HOMENAGEADOS

A edição deste ano do Festróia homenageou dois vultos do cinema internacional, um indiano e o outro português. Falo de Satyajit Ray e de Joaquim de Almeida.

O destaque vai em primeiro lugar para o realizador de quem Akiro Kurosawa disse um dia que “não ver um filme de Ray é como viver sem ver o sol e a lua”. Considerado um dos melhores vinte e cinco realizadores de sempre, o Festróia apresentou uma retrospectiva de seis filmes do realizador indiano, presenteando no final o seu filho, Sandip Ray (que integrou o júri oficial), com um Golfinho de Ouro, em memória do pai, falecido em 1992.

Quanto a Joaquim de Almeida, recebeu a maior ovação de todo o certame, naquela que foi a primeira grande distinção do actor no seu próprio país, depois de já ter visto o seu trabalho reconhecido em países como a Espanha e a Itália. E diga-se de passagem que foi inteiramente justa. Muito boa gente acusa-o de apenas saber interpretar um papel, algo que acaba por ser normal ouvir num país habituado a arranjar desculpas para justificar o sucesso dos outros. Pode ser que Joaquim de Almeida seja o melhor actor de sempre a fazer de espanhol em Hollywood. E depois? Pelo menos é o melhor.

OS DESTAQUES

Para além do já citado tributo a Satyajit Ray, que permitiu aos cinéfilos descobrirem uma cinematografia diferente, o outro grande destaque do Festróia foi para a secção Westerns de Leste. Esta, como o próprio nome indica, englobou seis dos doze filmes germânicos produzidos pela Alemanha de Leste durante a Guerra Fria, como panfletos de propaganda anti-americana.

Neles, a equação do westerns clássico norte-americano é desconstruída, passando os índios a serem os bons e os cowboys os maus da fita. Sempre com a estrela jugoslava Gojko Mitic no papel principal, estes indianerfilme surpreenderam pelos melhores e pelos piores motivos. Pelos melhores, pela sua reconstituição da época; e pelos piores, pelo seu carácter algo amador e demasiado ingénuo.

Além destes, gostaria ainda de referir alguns títulos isolados, que despertaram o interesse deste escriba. O primeiro foi o filme israelita “Que Lugar Maravilhoso”, que acabou por ser o grande vencedor do festival, arrecadando o Golfinho de Ouro para Melhor Filme. Habituados como estamos, a ver Israel aparecer diariamente nas notícias pelos piores motivos, foi uma agradável surpresa assistir a um outro retrato da cidade, mesmo que não tenha sido o melhor.

O outro filme que gostaria de realçar foi “Minha Terra”, registo norte-americano englobado na secção de Primeiras Obras. Esta estreia na realização de Ali Selim, que conta com a presença de um leque de actores respeitável, foi uma das grandes surpresas do festival, pela sua qualidade técnica e, sobretudo, artística, num drama de época humano e emotivo.

Por fim, gostaria de deixar o último parágrafo em exclusivo para falar da apresentação memorável de “Terjen Vigen”, clássico do cinema mudo norueguês de 1929, que serviu de abertura do 22º Festróia, acompanhado ao piano pelo reputado maestro Ketil Bjornstad. Com uma performance perfeita, o filme transformou-se numa experiência única, que no final não deixou ninguém indiferente.

NOTAS FINAIS

Sem querer alongar-me muito mais, queria terminar deixando aqui algumas linhas importantes. Primeiro, relembrando que o festival teve um acompanhamento diário e (quase) na integra no seu blogue oficial.

E por fim, não poderia terminar sem deixar uma nota destaque a Mário Ventura, o grande rosto do próprio festival, que faleceu no passado dia 16 de Junho. Mário Ventura Henriques, para além de ser o pai do Festróia, o qual presidiu durante vinte e dois anos, foi jornalista e escritor com créditos firmados. Enquanto jornalista, iniciou a sua carreira no Diário Popular, passando depois pelo Diário de Notícias, o Extra, o Seara Nova e a revista Câmbio 16.

Como escritor, Mário Ventura é autor de uma vasta obra bibliográfica, da qual se destaca “Vida E Morte dos Santiagos”, que lhe valeu o prémio de literatura do Pen Clube Português e o Prémio Município de Lisboa. Em 2005 havia editado o seu último romance, “O Reino Encantado”. Fora ainda presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Uma grande figura do nosso país que desapareceu aos 70 anos



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