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Future Shock 2009

Com tantas mudanças e notícias de última hora, torna-se importante manter alguma objectividade, inspiração e capacidade de foco.

Um dos dois livro litúrgicos para abordar a questão em mãos será o “Future Shock” de Alvin Toffler. Toffler nasceu em 1928, num mundo pós-agrário, consequente à revolução industrial (período que o próprio chamou de “segunda vaga”), e previu muitos dos adventos e cortes históricos quotidianos que hoje tomamos por garantidos – particularmente nesta obra referêncial.

Além de tudo isto, é curioso anotar que o celebrérrimo e inovador Juan Atkins, fundador da seminal editora Metroplex, e possivelmente a mais criativa das mentes musicais em Detroit desde há trinta anos, emprestou o epíteto “techno” desta obra ( a partir da expressão Toffleriana, “techno rebels”) para designar o estilo musical que desenvolvia no início dos anos oitenta; certamente apontando ao manifesto culturalmente inovador a que se prestava a filosofia mais purista desta vertente.

Toffler apresentava algumas premissas-base para o conceito de choque-do-futuro, que se resumem vagamente da seguinte forma: o “future shock” é a consequência psicológica adveniente da inaptidão em lidar com a rápida mudança dos moldes paradigmáticos do mundo.

Ora, conto ainda com escassos vinte e sete anos de vida, para sentir esta previsão em absoluto, contudo neste ano (melhor, desde o ano passado, ao fim deste), que a indústria musical sofreu tantas e tão abruptas alterações estruturais que por vezes as coisas mudam radicalmente num trimestre. Seja em tendências estéticas, em formatos musicais, em plataformas de software e hardware ou apenas a quantidade de música de qualidade que é editada regularmente mundo afora, muita dela em formato digital – que a torna muito difícil de ser trazida à consciência pública, acedida e consumida como num formato físico.
Infelizmente, não deixo de sentir, em paralelo, que o nosso país é ainda muito averso às mudanças abruptas que o mundo nos atira para cima a todos os níveis (falo a nível legislativo, mediático, e psicológico), excepto às mudanças tecnológicas formais. Como não me compete falar, em maior registo do que um de informalidade, em política, jornalismo, ou sociologia; pretendia só dizer que, este ano, o que o planeta apreciou e descobriu musicalmente foi reconhecido no nosso país em não mais que 5% da sua riqueza e pluralidade. Reflexo, claro, da nossa preguiça mental generalizada em consumir arte que não seja à priori entretente, e de um desinteresse geral – mesmo em círculos alegadamente mais especializados – em pesquisar e conhecer mais do que não é falado ou exposto. Sendo assim, o risco é claro: passam ao lado muitas coisas dignas de nota, e o apreço é atribuído ao de leve, por uma série de clichés. Mas como isso não parece incomodar a maioria, não me aborrece.

Agora, a entropia tuga em assimilar os rapidíssimos ritmos criativos que, mundo afora, se multiplicam, não é óbviamente, razão para que estes não se processem. Há é um desacerto cada vez maior entre o que se passa “lá fora” e “cá dentro”, a respeito da música menos óbvia.

Para agravar as coisas, neste ano deu-se – e quase que sem menção “cá dentro” – a uma mudança paradigmática fulcral, que me parece ter escapado à perspicácia de muitos: já não vivemos num mundo com divisões entre o “underground” e o “mainstream”. Este ano oficializou um enorme “future shock”: a cultura musical tornou-se globalizada e disponível a todos. Um bom exemplo é que grande parte dos temas editados em vinil exclusivamente, podem ser ouvidos na íntegra a 192 k/s no youtube, ripados da cópia original (o meu disco da 4Lux, que pensei ser relativamente escasso e obscuro, por exemplo, semanas depois do lançamento, encontrava-se disponível para audição integra neste portal), bem como uma grande parte dos grandes clássicos da cultura. Mas há mais sinais desta mudança: a força de portais e webzines como o Resident Advisor, a Fact, DJ History, Samurai FM (e por aí afora) é avassaladora. Nomes são erguidos e estabelecidos em consequência de um podcast ou uma entrevista, e outros colocados na campa depois de uma flame war num fórum de opinião. O mundo está aberto, a informação já não é acessível a uma elite de interessados – o desinteresse é agora sinónimo de iliteracia (mais uma previsão de Toffler)… e quem não pesquisa, fica de fora.

Qual é a consequência deste processo, que em 2009 se tornou tão evidente? Simples: estéticas, tendências, modas, regras… tudo pelo cano abaixo. As mais interessantes notícias musicais no momento presente já não têm nome que as categorize, já não há gavetas novamente. A música já é só excitante e boa (aquela a que me refiro, claro… mas que não tem nome), já não há um rótulo para que nos possamos comportar e vestir de acordo com. A “cena” de clubbing musical está profundamente fértil neste momento, e os dj’s mais interessantes escolhem temas que não encaixam rítmicamente uns nos outros e mostram música muito diferente, fazendo parecer que a todos pertence um bocado de tudo.

E claro, no meio disto, o grande bicho de sete-cabeças: o dj’ing digital, tão libertador como carrasco. Uma realidade no cerne destas mudanças, mas que ao mesmo tempo compromete a viabilidade comercial destas inovações… os tempos que se avizinham prometem um período em que, consequência da indústria de dj’ing digital, iremos ouvir muito mais de quem está a fazer vinil, do que quem está a editar virtualmente. O problema é que a Technics parece ter anunciado o fim do seu item mais valioso, e de um dos maiores símbolos dos últimos 30 anos: a série de gira-discos 1200 1210. Se o vinil cessa, os novos artistas vão ver-se aflitos para procurar uma plataforma que lhes permita que se destaquem (será tudo em torno da cunha, no futuro?)… “future shock”!

Contudo, os últimos relatórios de vendas mostram-nos que a última semana viu mais uns quantos milhões de pratos serem vendidos depois deste anúncio não-oficial – coisa que talvez rectifique a posição da marca quanto à alegada “falta de procura”. Claramente, o prato e o disco são para já – e desde sempre, praticamente – dois arquétipos que definem a nossa maneira de viver a música nocturna, e ainda não estamos preparados para um mundo sem 1200’s.

Com tantas mudanças e notícias de última hora, torna-se importante manter alguma objectividade, inspiração e capacidade de foco: discernir entre uma montanha de dados musicais é um desafio tão grande quanto o era, há 20 anos, vasculhar listas de armazéns de vinil à procura daquela dica que o amigo do outro me havia dado há meses. E isso parece fazer-me concluír que esta nossa existência é tão curiosa quanto cíclica, quem queria provar da maçã do conhecimento tinha que meter mãos à obra e vasculhar… agora tem que meter mãos à obra e analisar.



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