Hip-Hoporto @ Casa da Música

A cultura urbana no parque de estacionamento

Afinal o Outono chegou e ensombrou uma tarde que poderia ter sido de Sol, o “Hip Hoporto” marcado para o passado dia 23 de Setembro teve que passar do exterior da Casa da Música para o respectivo parque de estacionamento. O que para os que foram até à Casa da Música poderá ter sido um pouco incomodativo, o som demasiado alto e o eco tornaram a permanência quase impossível, durante os concertos era fácil atingir a saturação.

No entanto, e porque a necessidade aguça o engenho, assistimos a boas (e esperadas) surpresas: depois da actuação dos Gaiolin Roots, seguiu-se o concerto dos LCR ( Livre Comunidade Rimática) com os Mc´s Nocas e Berna e Dj D-One nos pratos. Em 10 minutos este colectivo incendiou a plateia e demonstrou que há muito era esperado pelos fãs. Ao longo de 45 minutos, os LCR, colectivo proveniente do Porto e em actividade há muitos anos, interpretaram temas auto-biográficos como “Comix”, deram-nos a sua visão do Hip Hop e do movimento, em faixas como “Hip-Hop” ou “B.I”. Numa actução que poderia ter sido bem melhor, se as condições acústicas o permitissem, os LCR brindaram os presentes com 9 temas onde assumem o papel crítico, militante e activo do Rap, deambulando por instrumentais ora mais dançantes, ora mais instrospectivos e negros. Tempo houve também para uma curta actuação do breaker Paulinho.

O senhor que se seguiu foi Sir Scratch, apontado como uma das revelações do Hip Hop nacional. Sir Srcath contou assim com a presença de Black Mastah, seu convidado no álbum de estreia – “Cinema: Entre o Coração e o Realismo” – e durante aproximadamente uma hora mostrou que veio para ficar e tem muito para dar. A sua passagem pelo palco contou também com a presença dos rappers SP&Wilson. Hip Hop consciente e quase autobiográfico.

Para encerrar a tarde de concertos foram chamados ao palco o duo SP&Wilson. Numa actuação de 60 minutos os MC´s fizeram BeatBox, rimaram e apresentaram o seu álbum “Barulho”, num formato dinâmico e mexido, virado para a pista de dança e para a festa. Desde o Hip Hop até ao Ragga, a dupla apresentou instrumentais poderosos e cheios.

Para terminar a tarde foi projectado no parque de estacionamento o filme “International Batlle of the Year 2005” perante uma escassa plateia. Para trás já se contávam 5horas de espectáculo e a hora convidava para o jantar.

Cerca das 22:30 recomeçam-se os concertos, perante uma plateia bem composta – apesar da enormidade do espaço. Inicialmente estavam previstos dois concertos separados, mas os MCs Ex-Pião e Mundo (membros dos Dealemma) optaram por um espectáculo conjunto de apresentação dos respectivos álbuns a solo – “Máscara” e “Sólidas Oportunidades de Mudança”, com edição prevista para Outubro. Durante cerca de uma hora e meia houve oportunidade para ficar a conhecer estes dois trabalhos que, embora distintos, foram facilmente integrados num mesmo concerto.

De facto, se há já algum tempo que era aguardado o trabalho a solo de Mundo – por diversas vezes anunciado e apresentado ao vivo -, a maior surpresa da noite foram, com certeza, os novos temas de Ex-Pião. Totalmente produzido pelo rapper, pelo que se pode ouvir na Casa da Música, “Máscara” será uma obra sui generis no panorama hip hop nacional, traduzindo as suas múltiplas influências musicais e aprofundando as temáticas líricas que já vinha a desenvolver no seu trabalho com os DLM. Uma mensagem política e socialmente crítica e interventivas, mas simultaneamente extremamente auto-biográfica, inspiradas nas suas vivências quotidianas, envolta em batidas ora inspiradas num hip hop mais industrial e obscuro, ora de um recorte mais clássico (directamente provindas da escola de Nova Iorque, década de 90), com alguns apontamentos rock. Destaque para o tema “Bairro”, o primeiro single do álbum, muito bem recebido pelo público (o que se pode explicar pelo facto de estar já disponível no myspace do artista), numa curiosa apropriação da linha melódica do refrão de “Cairo” dos míticos Táxi.

Também de entre os temas apresentados por Mundo, os melhores recebidos foram, com certeza, os que já se encontram disponíveis há algum tempo no seu myspace: “Sólidas oportunidades de mudança” e “O que é feito do respeito?”. Numa linha hip hop mais clássica, Mundo demonstrou porque continua a ser um dos melhores MCs nacionais, tanto em termos líricos como técnicos. No palco esteve ainda Berna para colaborar num dos temas, antecipando alguns dos convidados a figurarem no novo CD. Destaque ainda para Dj Guze (também dos DLM), um terceiro elemento fundamental neste espectáculo, que demonstrou um bom nível, assegurando poderosos scratches em muitos dos refrões. No final, o saldo foi positivo, com uma boa actuação destes Mcs nortenhos, apesar das inúmeras contrariedades técnicas e acústicas (a luz foi abaixo e as condições acústicas estavam longe de serem as melhores).

Em seguida, tempo para um breve show de beat box, com o regresso ao palco de SP & Wilson. Durante cerca de vinte minutos foram recriados uma série de clássicos do hip hop, do dance hall e até da pop internacional. E houve ainda tempo para versões freestyle de clássicos “pimba”, em cima de potentes batidas bounce, por vezes roçando o kuduro. E tudo feito utilizando somente as possibilidades vocais (e de entertainment) destes dois Mcs!

A encerrar esta noite “Hiphoporto”, passava já da meia-noite, os Dynamic Duo Dj Crew “incendiaram” o parque de estacionamento da Casa da Música, transformando-o numa autêntica pista de dança! No pratos estiveram os Djs Cruzfader e Stickup com uma receita composta de muito reggaeton, dancehall e (algum) hip hop, numa actuação tecnicamente perfeita de dois dj’s de topo na cena nacional.

No final do evento, ficou clara a sensação de que faltaram melhores condições acústicas para “agarrar” o público no local, o que teria permitido um resultado final mais positivo para esta segunda edição do “Hiphoporto”… Até para o ano!



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