Insen @ Coliseu

O japonês eclético e o maluquinho dos computadores.

“Escrever sobre música é como dançar sobre arquitectura”. Não existe verdade mais absoluta no universo do jornalismo musical que esta sarcástica citação de Elvis Costello. No entanto, se por vezes é uma situação fácil de contornar, noutras é uma ideia que se mantém a martelar constantemente na minha cabeça e não me deixa escrever mais do que duas linhas de palavras coerentes.

É isso que me tem acontecido nas últimas vinte e quatro horas, sempre que me sento perante a folha branca para escrever algumas considerações opinativas sobre o espectáculo Insen, vulgo Riuychi Sakamoto e Alva Noto, no Coliseu de Lisboa no passado dia 13. Não é por falta das palavras certas ou considerações mais ou menos justas. É antes a pressão de poder estar a ser demasiado redutor ao colocar por escrito um espectáculo com o alcance que aquele teve.

Por isso, talvez o mais acertado seja deixar este aviso ao leitor antes de começar: todas as linhas que se seguem serão sempre demasiado redutoras para o que se assistiu no Coliseu de Lisboa. Assim como escutar o próprio álbum do projecto também o é, uma vez que reduz à componente auditiva, uma performance que se complementa com uma importante carga visual.

O projecto Insen, para quem não sabe, junta o compositor japonês multifacetado Ryuichi Sakamoto e o seu piano com o artista-plástico alemão Alva Noto (o nome artístico de Carsten Nicolai) e o seu laptop. Talvez grande parte do público que compunha consideravelmente a sala estivesse à espera de um Sakamoto mais convencional ou, pura e simplesmente, não soubesse ao que vinha, tal foi o número de pessoas que abandonou o Coliseu ao longo do concerto. O que é certo é que todos aqueles que ficaram até final saíram com o sentimento de ter presenciado um espectáculo único. Para o bem ou para o mal.

O concerto iniciou-se mergulhado na penumbra e no silêncio. De um lado do palco, o piano. Do outro, uma bancada com uma extensa gama de material informático. Ao centro, uma longa tela. De um lado, a componente acústica. Do outro, a componente electrónica. Na tela, ao centro, as duas tentavam fundir-se numa simbiose artificial, celebrada com imagens minimalistas e electricidade estática, nem sempre com os melhores resultados.

Ryuichi Sakamoto começou por se debruçar sobre o piano como um cirurgião, de onde retirava os sons directamente das cordas, à medida que Alva Noto marcava o ritmo. As batidas regulares impunham o ritmo como um batimento cardíaco e os sons estridentes e distorcidos, afectados na tela como impulsos mecânicos, eram como estímulos nervosos à flor da pele. Sakamoto alternou ainda a abordagem ao piano menos convencional pela mais tradicional e aí a componente melódica do piano ganhava predominância sobre o carácter artifical da máquina de Noto.

A barreira que divide o minimalismo do simplismo, dois campos aparentemente semlhantes mas bastante distintos, é muito ténue. Alva Noto é um artista cujo trabalho e instalações se caracteriza pelo seu teor minimalista, mas posso garantir que durante o espectáculo, Alva Noto pisou ambos os campos.

No final, as reacções observadas no público eram díspares. Haviam as reacções jocosas e as indignadas, mas também as fascinadas. Nestas últimas, muitas vozes caracterizavam o concerto como experimental, algumas como progressivo. A palavra certa, no entanto, será outra: eclética.



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