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O Homem é Uma Máquina é um Homem, Parte 1

A Wired escreveu em 93 que o Cyberpunk morreu mas o seu legado é cada vez mais real, saltando das páginas e dos ecrans da ficção para um mundo moderno de total dependência tecnológica. Primeira parte de uma série de dois artigos sobre o Cyberpunk no cinema. Esta primeira parte é dedicada ao extremo cyberpunk Japonês.

Cyberpunk e Japão são quase sinónimos. Foi dos países que mais adoptou esta espécie de linguagem; viajar por Tóquio é como estar dentro dos primeiros livros de William Gibson – o primeiro homem responsável pela propagação do termo como cultura e estilo literário. Mas a origem do nome está noutro homem das letras, Bruce Bethke, que em 1981 o inventava como título para um conto. Mal ele sabia que esse termo seria tão importante. Se o soubesse provavelmente registaria a patente, é o que nos diz no prefácio da sua estória, que pode ser lida online.

Cyberpunk é um género de ficção científica que é caracterizado por um mundo urbano onde a tecnologia evoluiu sem precedentes e a níveis nunca esperados, deixando a população em cidades poluídas, sujas, e à margem de qualquer ideal democrático. A sociedade é distópica, e pelas ruas abundam hackers, punks, gente fora das malhas do sistema e que passam mais tempo online que offline. É, acima de tudo, um género de ficção científica urbana e cibernética, que adopta as características do film noir e do género de narrativa dos livros policiais (lembrem-se da gabardina de Deckard em “Blade Runner”). A primeira verdadeira obra Cyberpunk é “Neuromancer”, de Gibson.

Um universo Cyberpunk é um universo onde a máquina e o homem se confundem. As cidades são pólos de informação e de confusão. O mundo real é confundido com o imaginário do ciberspaço, do online. Toda a gente está conectada. Ao invés do politicamente correcto cientista ou anti-herói de camisa engomada da ficção científica mais antiga, o herói do Cyberpunk é um marginal, oprimido pelas mega-corporações que tomam o controlo destes mundos distópicos.

Mas esta é a definição romântica do género. O ponto fulcral é a relação carnal e obsessiva com a máquina, onde o homem procura melhorar a sua condição de humano tornando-se superhumano. É esta a base ideológica para “Tetsuo”, o segundo filme de Shynia Tsukamoto.

Uma visceral alegoria moderna, preto e branco low budget, “Tetsuo” é um perturbador e visualmente arrebatador exercício. A forma como Tsukamoto dirige este bizarro filme é no mínimo chocante, algo nunca antes presenciado e apenas replicado por outros compatriotas Japoneses à margem do comercial. Tetsuo é violência e horror em estado bruto, e é, por isso, incrivelmente belo.

A estória é simples mas urgente; há dois homens anónimos que de um momento para o outro se tornam lentamente em enormes monstros de metal transformando tudo o que tocam em aberrações. Na impossibilidade de lutarem até à morte, juntam-se e fundem-se num super monstro que irá transformar o mundo num paraíso de metal. A tecnologia é simbolizada pelo lixo, pela urgência carnal. A tecnologia é um vírus que transforma dois homens aparentemente normais em monstros, e ao evoluírem na sua condição de máquina conformam-se. A sede de poder e a conquista pelo poder tornam-se no único objectivo.

Dentro do espectro do extremo Cyberpunk Japonês há mais duas ou três obras que tomam a mesma forma, “Rubber’s Lover” e “Pinnochio 964” são exemplos. Igualmente extremos no que toca à metáfora que encerram, e especialmente nos visuais que, por serem low budget, são mais reais que qualquer blockbuster. Mas “Tetsuo” é o filme que marca esta interessante brecha do Cyberpunk no cinema. Já o Anime, especialmente em Mamoru Oshii, é mais contido na visceralidade, mas visita a temática frequentemente: a relação da tecnologia e a evolução sem precedentes, ciborgues que lutam ou que, à semelhança dos andróides de “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, se questionam sobre a sua verdadeira identidade e julgam-se (querem-se) humanos.

Phillip K. Dick, é, aliás, um verdadeiro avô do Cyberpunk. As cidades de Dick são distópicas, há viagens na mente e em “Ubik” temos até uma espécie de ciberespaço. Os heróis são quase sempre marginais, idiotas, feios e bizarros. Mas há uma condição humana que é mais forte que qualquer máquina.

A condição humana em “Tetsuo” é uma condição animal, como se a tecnologia nos transformasse ao ponto de nos tornarmos realmente humanos.

Este género de Cyberpunk é completamente diferente dos estilos usados no ocidente que primam pelos visuais mais suaves, com narrativas menos rítmicas e mais contemplativas. Uma fusão do extremo com o contemplativo/romântico pode ser observada mais uma vez no Japão. Animes como “Ghost In The Shell”, “Evangelion”, “Ergo Proxy “e outros são absolutamente relevantes para o género.

“Ghost in the Shell” é uma obra prima da animação que consegue fundir o oriente e o ocidente tanto a nível visual como a nível ideológico. O ciberspaco é o último reduto: ninguém morre na internet. Já “Evangelion” é mais clássico (mas não menos diabólico na sua psicologia), e lida com uma multicorporação que domina o mundo por ser a única força capaz de conter estranhas criaturas a que chamam anjos. “Ergo Proxy” é uma refinada série onde a narrativa se desenrola numa cidade utópica construída para proteger a população depois de um holocausto ecológico. Aqui há humanos e andróides a coexistirem pacificamente.

Mas o mais famoso, por certo, será Akira, que na sua mescla de acção com contemplação nos dá outra visão de um mundo distópico que tem mais parecenças com a realidade de hoje que a realidade do cinema de pacote.

O Cyberpunk no Japão, pelo menos o seu sumo ideológico e romântico, é muito mais presente que no cinema Europeu ou Norte-Americano de ficção científica. O Cyberpunk morreu no papel, mas continua vivo no meio da agitação tecnológica das cidades Japonesas.

Na próxima parte: a análise do Cyberpunk no cinema Ocidental.



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