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O regresso do assobio

Mais uma aterragem do homem pássaro em Lisboa.

Este ano, Outubro e Novembro são meses complicados. Muito, muito complicados. São os meses em que há um concerto por semana que vale a pena, e em que os amantes de música escavam pela carteira dentro à procura duns trocos que possam pagar uns bilhetes que, infelizmente, talvez pudessem ser mais caros. São os meses em que passam por cá os Tindersticks (pela quinta ou sexta vez este ano, mas vale sempre a pena), os Guns’N’Roses, os Faust, os Broken Social Scene, os Kronos Quartet e muitos outros; são os meses em que o festival Sintra Misty leva a Sintra alguns belos músicos e o festival Jameson Urban Routes leva ao Lux alguns excelentes nomes com preço a condizer (aliás, um dos dias até é de graça). São, portanto, um par de meses complicados (Novembro pior que Outubro, ainda assim); e tudo isso se complicou ainda mais quando, do nada, se anunciou que o grande Andrew Bird brindaria Lisboa com mais um concerto no dia sete de Outubro.

Tudo se complicou mais não por ser uma oportunidade única (o músico vem cá regularmente, e ainda no ano passado esgotou por dois dias o São Jorge), mas pela própria qualidade do músico em si; afinal de contas, um concerto de Andrew Bird é sempre um concerto obrigatório. Por isso lá foi preciso esgravatar mais a carteira, fazer algumas escolhas (os Placebo iam tocar no mesmo dia, mas cancelaram; há males que vêm por bem), e arranjar forma de comprar bilhete para o que será provavelmente uma noite mágica na Aula Magna; porque Andrew Bird é Andrew Bird, e Andrew Bird é imperdível.

E desta vez, a coisa é séria: Bird veio para cá antes do concerto, deu uma conferência no São Luiz sobre o seu método de escrita de canções (conferência que, ao que parece, acabou por ser um showcase de material novo), e agora vai andar por Lisboa a trabalhar num novo disco, passeando pela cidade de bicicleta. Se antes o músico já namorava a cidade, parece que agora houve mesmo casamento; já vem para cá trabalhar e tudo. Pelo que o músico disse numa entrevista recente, vai morar na cidade até dia oito de Outubro, habitando um apartamento; “como se tivesse mudado de vida”, diz ele. Para escrever e compor, acima de tudo. Ao que parece, Lisboa inspira.

O músico está, portanto, a meio da composição de um novo álbum; e o concerto na Aula Magna será, efectivamente, usado para mostrar quase tudo o que o músico tem feito de novo. Espera-se então um alinhamento que alterne entre os hinos do costume e muito material novo, que o músico nos irá agora apresentar pela primeira vez. Vai ser uma oportunidade para conhecer o que se poderá escutar no novo álbum, e ouvir em primeira-mão o que o músico tem andado a compôr; tendo algumas dessas composições feitas em terras lusitanas, certamente.

Bird é um verdadeiro prodígio. Violinista fabuloso (toca desde os quatro anos), compositor notável (ninguém faz jogos de palavras assim), vê-lo ao vivo é verdadeiramente ver um génio em acção. “Noble Beast”, lançado há dois anos, mostrava um perfeito domínio instrumental e um estilo de escrita que foi evoluindo ao longo de vários álbuns. Não foi, talvez, o seu melhor trabalho (esse é, ainda, o espectacular “The Mysterious Production of Eggs”), mas foi um álbum que manteve o nível de qualidade de uma carreira que ainda tem muito a dar. O brilhante uso de violino e as letras únicas tornam Andrew Bird num dos mais talentosos músicos dentro do género, actualmente; e depois há, claro, o assobio.

Quando Bird cá veio pela primeira vez dar um concerto, no Lux, foi uma amiga minha quem teve a tarefa de o acompanhar ao longo da sua estadia por Lisboa. “Ele não fala, Gonçalo. Só assobia. Para onde quer que vá, vai a assobiar”, conta-me ela. De facto, o assobio em Andrew Bird é como um instrumento em si; parte essencial da música, que muitas vezes tem o papel de refrão (veja-se “A Nervous Tic Motion of the Head to the Left”, por exemplo). Aquele assobio forte, que encanta qualquer um (bem, o homem tem a palavra Bird no nome, afinal de contas…), diferente de qualquer outro que tenhamos ouvido em qualquer outra música. Sim, o David Fonseca também se safa bem, e a “Young Folks” dos Peter, Bjorn & John também não é má, mas o assobio de Bird é como uma arte por si só. Vê-lo a fazê-lo enquanto toca violino é, realmente, algo que nunca se esquece.

A carreira de Bird a solo pode ser recente (a não ser que contemos com “Music of Hair”, álbum seu de 1996, profundamente diferente do que faz hoje em dia) mas já na sua banda, Bowl of Fire, formada em 1997, o seu talento musical vinha facilmente ao de cima; os três álbuns da banda são magníficos. É triste que a banda tenha acabado em 2003, mas foi graças a essa experiência que hoje em dia Bird é o músico que é; foi, afinal de contas, com os seus álbuns a solo que todo o seu talento foi verdadeiramente revelado.

Ver Andrew Bird ao vivo é ir a um concerto de um dos mais conceituados e talentosos músicos a solo actuais; e mesmo que se vá ao concerto sem se ter essa ideia, sai-se de lá já com ela bem assente. Quem o viu no ano passado sabe bem o mágico que foi, e no quão certamente o voltará a ser este ano; principalmente tendo em conta que é na Aula Magna, uma sala mágica já por si mesma.

Ouvir Bird em disco e ver Bird ao vivo são experiências diferentes; ao vivo, os arranjos são genialmente modificados, algumas músicas misturam-se entre si formando uma única canção, e tudo soa ainda mais único. Bird canta de forma mais teatral, o violino é ainda mais potente e arrebatador, e o espectador ora vai fecha os olhos ora os abre, indeciso entre deixar-se levar pelo que ouve ou ver um verdadeiro mestre em acção.

Há agora muitos concertos que se aproximam. Escava-se pela carteira dentro à procura de uma possibilidade de acompanhar todas as bandas que agora cá vêm, e reza-se para que não se confirmem mais nomes. Alguns são nomes que não vinham cá há anos, outros nomes que ainda no ano passado cá estiveram; alguns são nomes que já se viu uma vez e não se quer repetir, outros nomes que antes já se viu e que agora é preciso voltar a ver. Andrew Bird esteve cá no ano passado, e o seu regresso é uma notícia que complica a vida à carteira mas agrada à alma. Ter a sorte de ter este grande nome a passar por aqui tão regularmente é, verdadeiramente, uma honra. É um dos maiores song-writers da década, e vê-lo ao vivo é confirmar isso mesmo.

O concerto na Aula Magna será, portanto, um concerto mágico. Talvez até mesmo um dos concertos do ano. Muitos nomes cá vieram este ano e muitos ainda estão para vir, e de entre todos eles, este é um dos mais obrigatórios. Andrew Bird é Andrew Bird, e com ele os voos são sempre altos. O homem pássaro regressa ao nosso país esta quinta, dia 7; com sorte, para o ano a rota migratória também terá passagem por cá.

Fotografia de José Eduardo Real, tirada a 24 de Maio de 2009 no São Jorge



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