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Ondine

Conto de fadas para crescidos.

A disneyficação dos contos de fadas tirou-lhes o sangue, as vísceras, as cabeças decepadas, mas não lhes cortou por completo o negrume, o deslumbramento das criancinhas também passa pela violência desregrada, a loucura, o sacrifício ao passar da página, na voz dos pais antes de adormecerem. Nos contos compilados pelos irmãos Grimm, nos de Hans Christian Andersen, nos de Charles Perrault há tanto de sonho doce como de pesadelo.

Neil Jordan – quando não andava a fazer filmes políticos (“The Crying Game”, “Michael Collins”) ou adaptações literárias impossíveis (“The End of the Affair”) – foi procurando esse lado de pesadelo dos contos de fadas, recriações para adultos das histórias infantis. Este “Ondine” é a sua última tentativa de criar um conto de fadas moderno e para pessoas crescidas. Só que não consegue ir até ao fim com os seus desejos.

“Ondine” é estéril, apesar de insistir na história da sereia, ou da foca-humana, esforça-se demasiado por acreditar na sua própria história, o olhar não é de criança, deslumbrado, é de um cineasta que tem o propósito de injectar realismo social numa premissa de conto de fadas. Estarei a ser injusto, Jordan constrói o seu filme na lógica delas, tece paralelos entre a realidade e a lenda, no entanto, no fim fica aquele sabor amargo de que isso serviu como desculpa para o desleixo dramático. E mais não escrevo sobre este aspecto do filme para não ser desmancha-prazeres (se calhar já desmanchei alguns, mas o próprio filme vai-se encarregando disso melhor do que eu).

Embora me pareça que Neil Jordan sempre foi um realizador com um pé para a grandiloquência e para a gordura emocional, em “Ondine” perdeu controlo que demonstrou noutros tempos. A câmara poucas vezes está em terra, quietinha, a respeitar a visão do cineasta, os planos aéreos são mais do que muitos, acredito que seja um problema meu, mas quando vejo planos aéreos fico logo de pé atrás, qual é exactamente o seu propósito? Deslumbrar-nos? A mim, a única certeza com que me deixam é que não há mão por trás daquilo. Lembra aqueles actores que, como não sabem representar uma emoção simples, vestem uma peruca, põe-se aos gritos e ainda ganham um Óscar por se terem transformado prodigiosamente. Ir buscar Christopher Doyle – director de fotografia que fez prodígios com Wong Kar-Wai e no último de Jim Jarmusch –  para filmar assim é daqueles desperdícios difíceis de entender.

Colin Farrell lá leva com “Ondine” às costas, não nutro por ele qualquer ódio, de estimação ou outro – e ele atrai-os como ninguém -, Farrell já foi muito bom, superlativo até, em dois filmes que lhe exigiram que fizesse o mínimo possível e nos quais mostrou uma vulnerabilidade imensa: “The New World” de Terrence Malick e “Miami Vice” de Michael Mann. Neste, dá largas à auto-comiseração, que, aliás, mina todo o filme. Uma palavra só para Stephen Rea, o actor fetiche de Neil Jordan: é do melhor que o filme tem, como é quase sempre que aparece num.

“Ondine” é a súmula de todos os pecados de Neil Jordan enquanto argumentista e realizador, não é terrível, mas ninguém perde nada se não o vir.



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