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Revistas do Burlesco e do Satírico em Portugal.

Parte I: O Humor de Oitocentos

Longe vão os tempos em que as bancas de quiosques e tabacarias se enchiam de publicações de bom humor nacional, recheadas de caricaturas satíricas de políticos e outros estafermos, muitas vezes acompanhados de retratos de mulheres com curvas libidinosas.

Esta arte teve o seu período áureo na segunda metade do século XIX, foi silenciada durante o Estado Novo e regressou em força no pós-25 de Abril, para voltar a uma fase decadente na última década do século passado. Hoje em dia, praticamente só nos resta “O Inimigo Público”, caricaturas em jornal e o almanaque de piadolas da net denominado “Só Rir”. Presto assim homenagem a este suporte humorístico tecnicamente extinto no nosso país. Este mês, conto-vos os primórdios desta arte.

Durante as Invasões Francesas, os nossos aliados britânicos introduziram por cá os seus cartoons, legendados em português. A meio do século XIX começa a surgir em força a produção satírica nacional que, nesta época marcada por revoluções e várias lutas politico-partidárias, vem satirizar os intervenientes nestas quezílias. A ridicularização das figuras públicas passa vulgarmente por ilustrações em que estas fazem do povo burro de carga, ou são amamentadas por vacas e porcas metafóricas, que representavam os governos vigentes. Mais tarde, durante o caso do “Mapa Cor-de-Rosa”, os nossos antigos camarada britânicos passam também a alvo de chacota.

Neste Portugal de Oitocentos, 90 por cento da população era analfabeta e o país não tinha auto-estradas nem meios de comunicação digital (acreditem!), mas mesmo assim as publicações nacionais (humorísticas e não só) eram lidas por milhares, algumas conseguindo atingir uma tiragem de 5000 exemplares. Aqui fica a descrição de algumas publicações e artistas que marcaram esta época. Muitos nomes importantes ficam obviamente de fora por falta de espaço:

“Supplemento Burlesco do Patriota”

Uma das primeiras publicações humorísticas portuguesas. Surgiu em 1847 e, como o nome indica, era um suplemento ao jornal Setembrista “O Patriota”. Era constituído por quatro páginas, com prosa e cartoons. Bernardino Martins da Silva era o redactor dos textos e as caricaturas eram assinadas por Cecília, Maria, Afonço e Rita, autores cuja identidade é desconhecida. Através de um humor grotesco atacava impiedosamente o regime cabralista vigente. Exemplos disso são as caricaturas em que Costa Cabral e seu irmão surgem com corpo de cabra, ou a do Marechal Saldanha com cara de gato assanhado. Esta última é também um marco na banda desenhada portuguesa, por ter sido das primeiras ilustrações nacionais em que se utilizou balões de diálogo

“O Pimpão” e “A Chacota”

Podemos dizer que surge aqui o cruzamento entre comédia erótica e sátira política, que será refinado na segunda metade do século XX por José Vilhena. “Pimpão”, o “orgão dos dissidentes de todos os partidos existentes”, surgiu em 1876 apenas com anedotas e comentários políticos satíricos, mas aos poucos acabou por se tornar uma revista essencialmente erótica, com a inclusão de nus artísticos e de cartoons de Raphael Bordalo Pinheiro (que também começou a desenhar o cabeçalho em 79). Os textos libidinosos eram principalmente escritos por Alfredo de Morais Pinto, ou Pan-Tarântula, que curiosamente também escrevia poesia na revista infantil “O Livro das Creanças”.

Com início em 1882, a “Chacota” concorria com o “Pimpão” no campo do erotismo, mas utilizava um humor mais provocador em chocante. A maioria das ilustrações eram de autores estrangeiros, mas o cabeçalho estava a cargo de Celso Hermínio, de quem falarei em seguida.
Celso Hermínio e Leal da Câmara

São considerados discípulos do Mestre Raphael Bordalo Pinheiro (de cuja família falarei mais em baixo). Ambos apostaram num violento humor anti-monárquico, que os levou a vários confrontos com a autoridade da época.

Celso trabalhou com o Mestre Bordalo em “O António Maria” a partir de 1894. Dois anos depois lançou com o jornalista João Chagas “O Berro”, jornal satírico que, pela sua sagaz e violenta crítica aos políticos da altura é suspenso pelo juiz Veiga no mesmo ano. Tal como Raphael, Celso emigrou para o Brasil, onde trabalhou no semanário “O Diabo”. No regresso, em 1899, lançou “A Carantonha”. O primeiro número foi logo apreendido por retratar o Rei D. Carlos como o “carantonha nº1 de Portugal”.Voltou a colaborar com Raphael em “A Paródia”, mas o humor torna-se gradualmente menos incisivo.

Leal da Câmara é provavelmente o cartoonista português mais conhecido na Europa. Também colaborou com o jornalista João Chagas numa viciosa campanha antimonárquica e anticlerical nas páginas de “A Marselheza”. Fugiu para Madrid, quando pressentiu a eminência de um mandato de captura. Lá ilustrou vários jornais cómicos. Em 1900 partiu para Paris como correspondente do jornal diário espanhol “El Imparcial” e começou a trabalhar também em diversos periódicos de humor franceses, entre os cais o famoso “Le Rire”. Enquanto isso, enviava ainda textos cómicos para Portugal e Brasil. Regressou a Portugal depois de proclamada a República.

Os Bordalo Pinheiro

Apesar de Raphael Bordallo Pinheiro ser o nome mais sonante da família, por nos ter deixado a figura de Zé Povinho fazendo manguito aos opressores da plebe em caricaturas e faianças, o génio bordalesco foi herdado do seu pai, e partilhado por seus irmãos e descendência.

O patriarca Manuel Maria Bordalo Pinheiro criou vários quadros histórico-anedóticos e dirigiu vários jornais literários ilustrados, dos quais se destaca “O Panorama”, em parecia com Alexandre Herculano.
Para além de Raphael, os filhos Columbano e Maria Augusta tornaram-se também artistas conceituados dos finais do século XIX.

Raphael nasceu a 1846, em Lisboa. Cultivou desde cedo um amor pelo teatro e pela vida boémia e um ódio por qualquer disciplina. Esta atitude preocupou seu pai, que numa tentativa de lhe inculcar algum juízo lhe arranja um lugar na Câmara dos Pares. Aqui, entre políticos oportunistas, Raphael descobre a sua vocação de humorista e castigador dos “bons costumes” da época.

Em 1872 cria os “Apontamentos sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa”, uma sátira a D. Pedro II do Brasil. Em 1875 ilustrou pela primeira vez a personagem do Zé Povinho nas páginas de “Lanterna Mágica”.

Nesse mesmo ano partiu para o Brasil onde trabalhou nos jornais “O Mosquito”, “Psit!!!” e “O Besouro”. Em Maio de 1879 regressou a Portugal, para trabalhar n’”O António Maria”, provavelmente a mais importante revista de humor da época. Apesar do título ser retirado dos primeiros dois nomes do ministro Fontes Pereira de Melo, nas suas páginas o político é sempre satirizado num tom cordial, ao contrário de outras figuras públicas que são alvo de vários impropérios nas páginas da revista. As personagens de D. Pedro II e, claro, Zé Povinho, voltam a surgir nas páginas da revista. Esta revista tinha uma tiragem acima da média da altura, chegando até aos 7000 exemplares. Para além deste marco do humor nacional, Raphael publicou também as revistas satíricas “Pontos nos iis” e “A Paródia”. Tanto “O António Maria” como “Pontos nos iis” podem ser consultadas online, no site da Hemeroteca Digital.

Manuel Gustavo, filho de Raphael, segue as mesmas pisadas de artista multifacetado. Colabora com Raphael em “O António Maria” e “A Paródia”, mas acaba por se dedicar apenas à olaria, na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, fundada por seu pai.

A genealogia artística e humorística bordalesca não termina aqui. Outro descendente desta família, Pedro Bordallo, viria a ser director e editor do semanário humorístico “Sempre Fixe!”, em 1926. Mas falarei disso na Parte II.



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