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Siza Vieira

"Via-se como realizador?: Isso é que era bom, carago!"

Saímos da sala de cinema. O filme era «Tempos Modernos» de Charlie Chaplin. Escolha de Siza Vieira, um dos convidados da iniciativa “Um Livro, Um Filme”.

O que vai ler a seguir são dois dedos de conversa, no intervalo de dois cigarros, mesmo à entrada do Centro de Estudos Camilianos, em Famalicão. Curiosamente, obra assinada pelo “Arquitecto”. Começamos pela sétima arte, mas lá fomos parar à arquitectura. Inevitavelmente.

O Siza Vieira é um homem de mil e um projectos. Como é que arranja tempo para ir ao cinema? Costuma ir?

Não vou muito, devo dizer.

Mas gosta do cinema “comercial“, tal como está?

Não. Gosto muitíssimo de cinema. Mas ter de ir a um centro comercial para ver cinema, ainda por cima não posso guiar e ao final do dia estou cansado. Opto por ver cinema em casa na televisão. Sem a mesma qualidade, embora procure um aparelho que dê qualidade à projecção.

Um pouco de exigência…

Sim, noutros tempos saíamos ali no centro do Porto. Era muito agradável…

Quais eram os cinemas que frequentava?

Todos eles. O Batalha, o Coliseu, o Águia D’Ouro, sei lá, o Rivoli. Havia uma quantidade de cinemas no centro e era muito cómodo. Havia sessões à meia-noite, podíamos sair de casa calmamente a pé. Enfim, outros tempos.

E desses tempos passados, quais os filmes mais marcantes?

Ui! Tantos!

Mas diga-me pelo menos três.

“Morte em Veneza”, “O Leopardo”, os filmes do neo-realismo italiano, Di Sica, Antonioni…

E Fellini?

Evidentemente. Fantástico. Depois os norte-americanos, escolheria «Casablanca».

Gosta mais dos clássicos?

Não, não é isso. Gosto por exemplo, do Rossi e do Losey… Há muitos.

Via-se como realizador, por exemplo?

Isso é que era bom, carago! (Risos)

Não. O que vejo é muita coisa em comum entre a arquitectura e o cinema. Problemas como o ritmo, o percurso, a sequência dos espaços reais e imagens, etc. Um arquitecto vê-se identificado com essa expressão que é o cinema.

As suas obras também já foram objecto de filmes/documentários. Sente que têm algo de cinematográfico?

Toda a arquitectura tem algo que se encontra também no cinema. Não é por acaso que alguns conhecidos realizadores foram estudantes de arquitectura ou arquitectos. Dois que citei: Antonioni e Losey.
O Manoel de Oliveira é uma pessoa muito próxima da arquitectura. Tinha até uma casa maravilhosa feita pelo José Porto, um arquitecto português dos anos 30. Sei que ele se identifica muito com a arquitectura.

Veio aqui apresentar “Tempos Modernos”. Esses tempos ainda se apropriam desse tempo que é o nosso.

A palavra moderno tornou-se muito ambígua. Depois até surgiu o pós-moderno como sequência necessária. Mas a arquitectura de qualidade é intemporal. Como é também um grande filme, neste caso.

Apesar da sátira, o filme espelha tempos  difíceis como o de agora. É pessimista?

Como pessoa sou, mas isso já é defeito. Também como profissional, sim, porque o tempo não está bom para a arquitectura. Mas isso é razão de luta não é razão de suicídio ou depressão incontornável.

Quantos anos tem? Se não for indiscrição…

Tenho 77. Não é indiscrição. É uma chatice! (Risos)

Muito Obrigada pela conversa. Deixo-o agora a fumar o seu cigarro.

Este é já o segundo.



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