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Uma Indústria de Guerrilha

Em noventa anos de indústria discográfica física o vinil continua a ser o formato mais resistente à passagem do tempo.

Quando nos anos 20, os cilindros de Amberol foram substituidos por discos de cêra, poucos seriam capazes de prever que quase 100 anos mais tarde, o mesmo formato seria ainda produzido da mesma forma, e comercializado mundialmente; e o seu princípio funcional – embora refinado ao longo dos anos– manteve-se imaculadamente idêntico, sofrendo não mais do que alguns ajustes e mínimos upgrades. Cêra, ou seja wax… mais tarde substituído por plástico, ou seja, vinil.

Estamos a celebrar noventa anos de indústria discográfica física, e muito embora esta tenha já visto dias de imensa glória que assombram os tempos de hoje (onde representa pouco mais de um centésimo da indústria musical em todo o mundo), continua a ser o formato mais resistente à passagem do tempo e mais teimoso em abandonar os corações dos amantes de música. É ainda o vinil que serve em grande medida como factor preditor do sucesso de muitos dos temas de música electrónica que hoje em dia vemos os dj’s reproduzir. Ou seja, embora os dj’s possam comprar apenas os ficheiros, e não reproduzam directamente o disco, a existência de um disco de vinil da obra torna-a mais visível e impossível de ignorar. É um objecto no qual foi investido uma tal credibilidade, que foi tornado realidade física pela validade artística da música que o reveste… num mundo que tende a esquecer-se rapidamente de tudo o que consome.

O objectivo desta intervenção não será o de explorar a história do disco – amplamente documentada nas mais diversas publicações – mas o sim de reflectir um pouco sobre a sua importância simbólica no mundo actual. Assim, por ordem lógica e resumida, passo a apresentar alguns aspectos sobre os quais a reflexão é imprescindível para compreender o fenómeno vinílico.

Em primeiro lugar, o coleccionismo… como paradigma vou já referir a célebre e trágica história de Paul Mawhinney e da Record-Rama Sound Archive. Actualmente, Paul está por detrás da Music Master, uma publicação que determina o status quo e inerente valor da maior parte dos discos de vinil – em particular os mais antigos e de difícil acesso, uma publicação seguida atentamente por muitos dos mais proeminentes coleccionadores de música do mundo.     Paralelamente, e por questões económicas e de saúde, procura vender a sua colecção de mais de três milhões de discos e outros trezentos mil compact disc, a uma instituição que a compre sob promessa de a manter bem preservada, de forma a salvaguardar o legado musical dos últimos sessenta anos.

Para dar uma ideia do quão importante será esta colecção, de toda a música que foi publicada nos anos 40, apenas 17% dela parece estar disponível ao grande público actualmente, e nesta colecção encontrar-se-ão certamente muitas cópias de discos produzidos e fabricados neste período, que em lugar algum poderão ser ouvidos novamente. Há que considerar a perda imensa para a História da arte da Música que será o esquecimento de tão gigantesca obra, descritiva de um período histórico amplo e prolífico. Ainda ninguém conseguiu comprá-la, embora tenham havido algumas tentativas, e o gravoso estado de saúde de Paul ameaça deixá-la orfã e sem alguém que a valorize.

Este exemplo serve como ilustração para explicar a importância da história presente na música, composta e gravada ao longo do século passado, e como apenas um objecto físico pode apresentar-se como prova de autoria indiscutível da sua existência e validade. No que toca a manter um arquivo detalhado da actividade criativa humana na área da música, mais nenhum formato se mostrou tão confiável e à prova do tempo… o vinil oferece o melhor suporte possível à audição capaz e adequada de música (o alcance dinâmico da gravação possível nas suas estrias é inultrapassável – à excepção, talvez da fita magnética profissional, cuja delicadeza e volume eram de tal forma que uma colecção deste formato seria uma aspiração impossível e irrealista).

Assim, uma boa colecção de música é normalmente composta por cópias de discos de vinil, dos mais distintos tempos históricos, e revela bem mais do que se pensa: é um arquivo de som e arte. Em oposição, nada disto pode ser dito a respeito do formato digital computorizado, que facilmente se perde nos labirínticos discos rígidos, e – desprovidos de capa ou de qualquer característica palpável, além do seu nome e do som que codifica – arriscam tornar uma obra em algo de anónimo e indigno de qualquer atenção que ultrapasse a sua audição em modo de música de fundo.

Em segundo lugar: a materialidade. A matéria. Objecto das mais densas discussões científicas, metafísicas, filosóficas, psicológicas, matemáticas e esotéricas… faço rápida alusão a um conceitos sobre a matéria – como forma de justificar a importância de um disco de vinil. Na cabala judaica, o nosso mundo – físico, Malkuth – é fruto do exalar dos mundos superiores aos quais os nossos sentidos imediatos estão vedados… a realidade física é vista como uma aplicação prática dos princípios universais que nos são insondáveis. Ou seja… a matéria é a legitimação do Divino. Esta ideia é também comparável à compreensão universal defendida pelos teosóficos, no famoso diagrama dos arquétipos que revela o nosso mundo (da matéria) como o um sub-produto do funcionamento do mais divino universo.

Pensemos agora no que é um disco de vinil senão uma metáfora para estas ideias: um objecto material, no qual está impresso algo de transcendente – a música. É análogamente uma manifestação no mundo real, de uma vontade criativa de um autor. É uma discussão infrutífera, a de se estar a comparar o quão prático é ter um ficheiro que não ocupa espaço físico em detrimento do inconveniente de se comprar um disco (cada cópia nova custa entre 8 a 12 euros) que ocupa espaço e pesa na carteira. Há prós e contras a respeito dos dois, eu advogo apenas que só um disco (um cd, ou um objecto físico, externo ao disco rígido) simboliza a importância e legitimidade absoluta da existência da música que se está a ouvir, conferindo a esta um carácter de realidade indiscutível.

Um ficheiro é apenas metade da questão, a meu ver, e muito embora a música seja o mais importante – o seu acesso e a possibilidade de ser ouvir sempre que pretendemos – a qualidade com que é reproduzida e o acréscimo ao seu valor que é um investimento no sentido de a materializar são aspectos que completam o fenómeno absolutamente. Portanto, não escondendo a cabeça na areia – ignorando o progresso ou a força do que tem de ser – pretendo apenas relevar o perigo de perder de vista que este mundo está feito para que experiênciemos as coisas com os nossos sentidos – tantos quanto possível…

Que raio de lógica faz esta realidade, se podemos ver fotos da estátua de David, mas se não a pudermos contemplar directamente, um dia que o queiramos fazer? Mais ainda, o facto de um disco ser uma realidade, confere ainda algumas particularidades impossíveis de realizar no mundo digital: um disco pode ter várias cores, pode ser cortado de forma a tocar de dentro para fora, e pode até ter várias estrias espirais concêntricas e em paralelo que reproduzem músicas diferentes (em vez de ter duas ou três músicas gravadas em sequência).

Em terceiro lugar, a legitimação da importância do DJ. O disc-jockey é uma personagem da cultura urbana, ubíqua desde há sessenta anos. Primeiro nas rádios, claro, e mais tarde nos clubes de dança. De qualquer maneira, é uma figura proeminente no estabelecimento de tendências musicais, na exposição de música nova (o que seria da música actual sem John Peel ou o Electrifying Mojo?) – “breaking the music” na gíria inglesa – e no tão valioso trabalho de recuperar música que foi ignorada no seu tempo e que ganha contexto anos depois de ser editada. Claramente, não há outra figura que consiga realizar este trabalho senão o dj, e sem um conhecimento minimamente capaz da história da música (de dança ou não), um dj é medíocre no que faz.

Nesta altura não procuro dizer que os verdadeiros dj’s são aqueles que expõem a sua música através de vinil (embora esses sejam quase sempre os mais verdadeiros), mas sim de dizer que um bom dj é claramente um coleccionador de vinil… e embora não seja um requisito absoluto passar música em vinil hoje em dia, é certamente um requisito que um dj saiba como misturar música sem a ajuda de software, de forma intuitiva e directa.

E ainda mais o é, que um dj compreenda minimamente a etimologia da música que dá a ouvir, que saiba de onde vem e para onde tende a ir, que compreenda os vários pontos nos quais essa música converge com outras, semelhantes e contrastantes. E o único formato cuja história é suficientemente longa e cujo catálogo é amplo o bastante, é certamente o vinil. A quantidade de música que é feita exclusivamente para este formato é imensa, e uma enorme maioria de música que foi lançada apenas em vinil, nunca verá o dia em que será tornada um ficheiro digital.

É principalmente um dj com uma colecção de discos de vinil, aquele que é capaz de redescobrir uma pérola escondida, uma versão obscura de um tema perdido num catálogo de uma editora que lançou três discos ao longo de dez anos (e que por acaso soa perfeitamente actual) criando um dos muitos fenómenos de recuperação de editoras e artistas que se vêm frequentemente na cultura de dj nocturna e em fóruns de discussão de música na internet. Ainda mais, é muito mais provável que um dj de vinil se recorde de um tema conhecido que não é ouvido há quinze anos (mas que jaz num cantinho do armário) do que um púbere aspirante a dj que não conhece mais do que os charts de vendas de sites como o beatport.

O vinil pode não servir de argumento para determinar os melhores dos piores, mas serve com toda a certeza para se poder ter um grau de segurança muito grande a respeito do nível de paixão de um dj pela sua música, e a seriedade com que leva o seu trabalho. Não proponho que em 2009, um aspirante a dj comece a queimar as suas economias em vinil, mas sugiro que é a melhor forma do seu trabalho se destacar da norma daqueles que nunca souberam mais do que aquilo a que são expostos.

O vinil tem destas coisas: exige que o procuremos, que o conheçamos, que o saibamos valorizar… e muito embora eu seja o primeiro a digitalizar temas da minha colecção para não ter de correr riscos com os discos originais (o que, aliás, é um crime, segundo a nossa bárbara legislação, que admito fazer, orgulhosamente), eu sei bem onde tenho os originais e admito que passar um ficheiro não me dá um prazer comparável a tirar o disco da capa.

É apenas pela paixão de alguns indivíduos que a indústria do vinil continua a produzir mais de 3.000 títulos por semana, nos mais variados estilos (na sua maioria Hip Hop e House), e serve de referência a muitos dos dj’s que – já não comprando discos – baseiam o seu trabalho pelo material que foi editado físicamente. Daí que a tiragem média do vinil seja, actualmente, inferior a um milhar… mesmo assim, é o suficiente para que os artistas que conseguem a sua música em vinil sejam muito mais valorizados que os que anónimamente atrofiam a indústria com mp3 mal produzidos e sem qualidade criativa ou técnica para serem editados.



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