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Utilitas Interrupta

Inutilidade em versão XL. Uma provocação do inútil contra o “tabu do falhanço”.

O sucesso é, nos dias de hoje, filosofia de vida dominante. A cultura dos melhores resultados, da eficiência e da superação constante domina os principais discursos da actualidade, pontuados por uma dose q.b. de lugares comuns. Ora, uma homenagem ao inútil e ao falhanço pode parecer um contra-senso, mas é precisamente aí que reside o interesse em “Utilitas Interrupta”.

O conceito não é de digestão fácil. É que aqui quando se fala em inutilidade, é “à grande”. Enquanto o mundo académico e artístico se concentra nos expoentes máximos do génio humano que qualquer cidadão facilmente enumera (Torre Eiffel, Canal do Suez, Golden Gate de São Francisco, e por aí adiante), há quem olhe para aquelas construções que, pura e simplesmente, falharam redondamente no cumprimento dos seus objectivos.

O curador Joseph Grima apresenta 17 case studies espalhados por todo o globo numa exposição que explora a fotografia, o vídeo, a documentação histórica e a maqueta.

A um canto de uma das salas da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, um coelho embalsamado por detrás de uma cerca surpreenderá o mais incauto visitante. Trata-se da representação da “Vedação à Prova de Coelhos n.º 1”, uma das mais desconcertantes (e incompreensíveis, diga-se) construções humanas. No início do século XX, a população de coelhos (introduzidos cem anos antes na ilha pelos primeiros colonos por “lembrarem a terra natal”) atingiu proporções gigantescas, prejudiciais para a agricultura.

A solução foi a edificação de uma vedação para travar o avanço de tal praga. Só que os coelhos, como é da sabedoria popular, têm uma propensão para a reprodução incessante e, ainda antes da primeira vedação ficar concluída, já haviam ultrapassado os seus limites. Abreviando, hoje, o território australiano conta não com uma nem duas, mas três vedações de proporções continentais perfazendo mais de 3 mil quilómetros.

É apenas uma das apaixonantes histórias que se escondem por trás destas construções, que mais não são do que castelos de areia que, mais cedo ou mais tarde, mergulham na dura realidade. O seu testemunho fica, oscilando entre o absurdo da sesta dos funcionários da bilheteira de um centro comercial chinês com um por cento de ocupação de lojas, e o caricato das fotos de férias familiares de uma família americana ao Mar de Salton, criado artificialmente pelo desvio de dois canais do rio Colorado e que atingiu níveis de salinidade perigosíssimos (é também conhecido como o único erro humano visto do espaço).

Dividida pelas salas da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva e pelo Reservatório da Mãe d’Água, também no Jardim das Amoreiras, a “Utilitas Interrupta”, inserida na Bienal EXD – Experimenta Design, está patente das 10h às 18h até 27 de Novembro.



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