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Filho da Mãe | Entrevista

Este Filho da Mãe prodigioso anda a promover o seu mais recente trabalho "Água-Má" por tudo quanto é lado. Gravado entre Lisboa e a Madeira, acaba de o apresentar nos Açores. Estive à conversa com ele antes dessa apresentação e deixo-vos com o resultado.

Sabemos que começaste em bandas, depois enveredaste por uma careira a solo, como foi esse percurso? Como se deu a tua incursão na música, sabendo que estudaste e trabalhaste em arqueologia?

Já toco há muitos anos, não propriamente com a indicação de fazer carreira, nunca me passou isso pela cabeça, mas tocava, tinha bandas e conciliava as 2 coisas. Fazia tournés europeias com uma e outra banda, tocávamos por aqui bastante, mas sempre numa perspectiva de não ser só músico, nem nunca pensei que fosse possível fazer vida disso. Depois houve um momento qualquer em que as bandas pararam, arqueologia estava a chegar a um ponto de ruptura. Como tinha já algumas músicas na guitarra clássica e tocava sozinho, pensei que talvez pudesse tentar fazer um disco e depois estar uns 3 meses a ser só músico, uma espécie de pausa na minha vida e essa pausa acabou por se tornar nuns 7 anos, a coisa não foi muito pensada de início, foi acontecendo.

Mas apeteceu-me tentar fazer isso, porque era diferente, fui apanhado nesta espiral de tentar fazer discos e mais discos, e de repente estou a viver disto e já é um modo de vida, mais do que um modo de subsistência porque é mais importante tocar às vezes do que ter de se pagar a renda e todas as outras coisas, mas tocar depois é compulsivo, gera-se um vício disto, de continuar a tentar fazer discos. Foi uma coisa gradual.

Mas então actualmente consegues viver só da música?

Só tenho como, não tenho outra maneira, vou tocando com pessoas, já fiz umas músicas para publicidade, há uns anos atrás, vou fazendo umas peças de teatro, umas bandas sonoras… Disso tudo, mas essencialmente dos meus concertos vou tirando o meu modo de subsistência.

Mas então fazes músicas para peças de teatro?

Fiz uma vez, mas foi um projecto que acabou por não se concluir, na verdade era mais um projecto de dança. Mas costumo fazer mais para cinema, por exemplo, para o Festival de Curtas de Vila do Conde, dão-me um filme e eu faço daquilo o meu recreio, uma vez o Museu do Douro também me encomendou um trabalho à volta de um filme, já não me lembro o nome e faço espectáculos ao vivo com imagem.

É uma coisa que eu gosto de fazer, não me tem surgido muito, mas gosto bastante. Também o facto de estar a tocar com a guitarra, há coisas em que isso encaixa bem, há outras em que nem tanto, mas é uma coisa que eu gosto muito de fazer, principalmente se houver algum espaço para improviso e interação com as pessoas. É um mundo muito diferente, é mais difícil de organizar, a logística é outra. A dança é uma coisa extremamente exigente e as pessoas têm uma mentalidade um bocado diferente, o que gera um resultado engraçado em música, já fiz assim algumas aventuras mas nada de mais.

Conta-me um bocadinho como foi o teu percurso na guitarra, sei que és autodidacta.

Eu costumo dizer que sou mais auto do que didata, a coisa é mais automática, o meu pai era autodidata, aprendeu música dos livros, aprendeu a ler músicas e a tocar peças do jazz e da bossa nova, coisas complexas daquilo que ia lendo e ouvindo. Eu sempre fui um pouco mais displicente, um bocadinho mais próximo do punk, aprendi os 3 primeiros acordes e comecei a fazer música. Eu comecei a fazer música desde muito cedo, embora não valessem um chavo, mas assim que aprendi 2 acordes fiz uma música que achei que era minha. A compulsão para fazer músicas existiu primeiro do que tocar bem guitarra, fui tocando bem guitarra à medida que fazia as minhas músicas, foi uma aprendizagem um bocado estranha, porque às vezes nem se aprende bem um instrumento, eu aprendi a tocar bem aquilo que eu queria tocar num instrumento, mas nunca o aprendi a tocar formalmente. Por exemplo, eu toquei durante muito tempo guitarra portuguesa, mas toco-a mais à minha maneira do que ela se calhar é suposto ser tocada, faço exactamente a mesma coisa na guitarra clássica.

Com quem aprendeste a guitarra portuguesa?

O meu pai sabia tocar as coisas, sabia mais ou menos. Eu aprendi muito com um livro do Eurico A. Cebolo, que se chama Guitarra Mágica que tem os baby steps todos. Lembro-me de andar a treinar os acordes em miúdo, numa coisa e na outra, na guitarra portuguesa depois. O processo foi assim, eu comecei com a guitarra clássica, quase toda a gente começa com a guitarra clássica, a fazer aquelas musiquinhas, mas o que eu queria mesmo era tocar guitarra eléctrica, mas não tinha. Toda a gente gosta de fazer barulho, fazer distorção e o meu pai comprou-me uma guitarra eléctrica há milhares de anos atrás. Comecei a tocar, mas para fazer metal e coisas assim do género. O processo vai da guitarra clássica, começa com isso e continuo sempre a tocar de alguma maneira, mais tarde começo a tocar guitarra portuguesa e depois importo todas estas coisas para a guitarra eléctrica outra vez e é quando eu toco com todas essas bandas rock “If Lucy Fell” e “I Had Plans” e quando comecei a fazer esta história de Filho da Mãe voltei às origens, portanto à guitarra clássica, que eu já não tocava há algum tempo, mas estive sempre à volta de guitarras.

Mas a guitarra portuguesa veio do teu pai?

O meu pai tinha comprado uma guitarra portuguesa que estava sempre na parede. Ele teve uma banda há muitos, muitos anos, chamada Filarmónica Fraude, ele tocou nessa banda, e ainda participou num disco, num EP, creio eu. Ele tocava em bares, fazia covers, tem um passado muito ligado à música, embora depois a vida não o tenha levado para estes lados, não o deixaram também, ele trabalhava numa companhia de seguros. Isso foi uma das coisas que me fez dar o salto, não tive propriamente esses impeditivos familiares do serás isto ou serás aquilo e achei que se calhar até era uma boa ideia tentar uma coisa que não o deixaram fazer em prol da “sanidade”. A iniciação da coisa foi quando o vejo tocar, tocava com os amigos aquelas bossas novas complicadas e olhava para as posições e tudo aquilo me parecia impossível de fazer, e depois foi com um grande grau de obsessão que eu comecei a conseguir tocar melhor.

Os teus discos foram todos feitos numa vertente de residências, acabaste por passar sempre por locais muito antigos, conventos, mosteiros

Sim, por acaso… Nada que tenha sido muito pensado, mas na verdade acho que absolutamente todos eles, o primeiro disco foi gravado na casa do João Nogueira e do Makoto que tem um estúdio aqui que se chama Haus. Eles tinham uma casa ali ao pé do Marquês de Pombal, que nós chamávamos palácio, aquilo acho que tinha sido uma residência de aristocratas ou coisa do género, e era bastante antiga também. O disco a seguir, o “Cabeça”, foi gravado no Convento de Montemor-o-Novo, em Amares também gravei numa igreja e num convento também bastante antigo, agora aqui gravei numa casa oitocentista, mas isso aconteceu um bocado por acaso, não foi de propósito, não tinha pensado nisso.

Como aconteceu esta possibilidade de fazeres esta residência na Madeira?

Surge completamente por acaso, eu estava aqui a gravar neste estúdio, mas depois de 3 dias de gravação pareceu-me que não estava lá, que não tinha encontrado aquilo que queria, então fiz uma pausa. Deixei lá muitas horas de gravação, mas fiz uma pausa para pensar um bocado mais no que tinha. Entretanto, passado um mês ou coisa assim, falo com o Hugo Valverde que é quem acaba por gravar o disco e produzi-lo comigo. Ele falou com o Pedro Azevedo do MusicBox, que depois falou com pessoal do Barreirinha Bar Café que também organizaram o “Aleste” na Madeira, que depois falaram com a minha agência no Porto e de repente estou na Madeira a gravar. Foi basicamente assim, não houve nada planeado. Eu já tinha conversado com o Pedro Azevedo, há muitos anos atrás, sobre a possibilidade de fazer um disco na Madeira, mas entretanto o meu filho nasceu e as coisas não foram por esse caminho, e de repente, assim numa curva estou lá a gravar, sem absolutamente indicação nenhuma de onde vou gravar, nem como vou fazer a coisa, mas à medida que fomos chegando, fomos decidindo tudo lá.

Nem tinha ideia que o disco ia andar à volta do conceito da ilha da Madeira, era apenas o local onde eu ia gravar, mas depois a Madeira acabou por entrar no disco e influenciar as músicas de alguma maneira. Eu já tinha bastante material, digamos que eu tinha os capítulos, mas não tinha a história toda. Eu já estou um bocadinho habituado a gravar em ambientes de residências e sei que a partir do momento em que se ligam os microfones vai-se fazendo sozinho.

filho da mãe

Ouvi dizer que tens o sonho de escrever um livro, verdade?

Tenho, tenho vários capítulos escritos, vou escrevendo às vezes capítulos em aleatório, coisas que depois leio mais tarde ou que alguém próximo também lê e gosta e me dá muita força para o fazer, mas a ideia de escrever um livro, e a consistência que é preciso para o fazer eu acho que ainda não tenho. Sabes, a autocrítica é uma coisa miserável, ela existe muito na música e neste disco isso aconteceu a certa altura. Acontece ao ponto de quase nos conseguimos derrotar a nós próprios e eu não gostava que isso acontecesse na escrita e, portanto, espero pacientemente até estar pronto para escrever um livro. Acho que já li tão bons exemplos de pessoas que têm ideias tão maravilhosas, e como sou um gajo de não planear, vou tendo as ideias à medida em que vou fazendo, acredito que a escrita, se fôr um livro, pode acontecer muito ao correr da pena, que era coisa que eu não queria. Assim, alguma coisa mais curta, como um conto eu acho que até podia funcionar, mas para um livro, espero mais um bocadinho.

Há medida que os anos vão passando eu vou ganhando mais vontade de fazer essas coisas. A música ocupa um espaço do cérebro muito diferente da parte da escrita e eu até agora acho que faço as coisas um bocado da mesma maneira e não sinto que esteja pronto para fazer uma coisa desse género, mas é provável que aconteça, eu também disse que nunca ia tocar a solo, e depois toquei, provavelmente um dia pode ser que publique alguma coisa.

Tu costumas revisitar músicas dos discos anteriores nas apresentações ao vivo?

Tenho o mau hábito de não fazer isso, tornaria o concerto um pouco mais fácil para mim se o fizesse, mas eu fico um bocado obcecado, eu acho que isto está de alguma maneira ligado com a escrita, eu sinto os discos como um livro, como uma narrativa. Eu gosto de ouvir os discos todos seguidos, não sou muito de misturar músicas quando ouço e gosto da ideia de apresentar o disco tal e qual como ele é. O alinhamento é tal e qual, é a interpretação ao vivo daquele trabalho, que é sempre diferente, nunca fica igual, até porque há muitos momentos de improviso também nas gravações, o ambiente, o som da guitarra, tudo isso não se consegue reproduzir exactamente ao vivo, há uma aproximação a isso, uma abordagem a isso. Gosto da ideia de contar a minha história, e de não ter material antigo, o material antigo a certa altura começa a irritar-me, depois começa a salvar-me a vida, porque tocar um disco na íntegra é duro, existem momentos que podem funcionar bem no disco mas ao vivo não tanto.

Tu dizes que o disco tem muita influência da Madeira

É isso que se pretende. O disco acaba por se modificar muito por ter sido gravado naquele sítio, os sítios acabam por entrar nos discos de alguma forma. A Madeira faz muito sentido com aquilo que é o conceito do disco, o andar com a corrente e claramente ele está a andar com a corrente. Eu tenho músicas que começaram a surgir quando eu estava no Algarve ainda em férias, em particular aquela que se chama praia, que foi a primeira a ser criada e a primeira do disco. O disco é muito simples, nesse sentido, cronologicamente é fácil de entender, geograficamente é muito confuso, não tem a ver com um sítio propriamente, tem a ver com vários sítios misturados.

Há alguma influência de música africana, que eu ouço desde miúdo, também está lá metida no meio, alguma coisa meio sul-americana, de forma pouco definida. É tão lógico começar por apresentar o disco aqui em Lisboa como tê-lo feito nos Açores. Faz mais sentido ter sido em Lisboa porque eu sou de Lisboa e tive o convite do Maria Matos que é uma casa pela qual eu tenho quilos de respeito, fez parte do meu percurso, é muito importante para mim. Mas na verdade o disco não pertence a sítio nenhum, foi gravado na Madeira, mas também estive aqui a gravar, comecei por tentar tocá-lo no Algarve, vou tocá-lo nos Açores, ele pertence um bocado a todo o lado e é engraçado essa história das ilhas porque me faz imaginar uma alforreca que vai com a corrente e vai fazendo todo esse percurso à medida que vai aparecendo. Como é uma alforreca que está na capa acaba por ser engraçado.

E acaba por ser o que dá o nome ao trabalhoÁgua-Má

É um sinónimo.

Convidem-no para escrever um livro, apresentem-lhe um projecto deste género, se não fôr um livro encomendem-lhe um conto, uma crónica, aposto que vai valer a pena!

E como sei que ele vai ler isto, deixo aqui um pedido pessoal, para quem sabe ele possa ter a gentileza de mo satisfazer no próximo disco: pelo menos uma faixa ao sabor das cordas da guitarra portuguesa!



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