Luomo

O tal da pop-house.

Para quem não soubesse, Vladislav Delay aka Luomo é um dj e produtor finlandês com um “fetish musical” pelas vozes. Compõe essencialmente house, ou mais precisamente micro-house.

Mas o que se entende por micro-house? Coloco a questão no ar, não presumindo uma ignorância (perfeitamente compreensível) difundida entre os leitores em relação à prolífera invenção de nomes, termos, diminutivos e fusão de expressões para caracterizar – mais que definir – os estilos musicais filhos todos eles daquela grande mãe que é a “electro music”, mas para satisfazer aqueles que, tal como eu, não se sentem confortáveis com o simples memorizar das fórmulas e sua aplicação no exame, mas preferem ao contrário entendê-las para, antes de mais, economizar espaço naquele pequeníssimo cérebro de que dispõe o ser humano, mas sobretudo para melhor apreciar o que está por trás daquelas ondas sonoras magicamente cuspidas daquelas caixinhas com dois buracos e um suave tecido a cobri-los a que o tal homem chamou “colunas da aparelhagem lá de casa”.

Ora, micro house, “tal como o próprio nome indica” não é mais que um derivado da música house, a qual nasce nos anos 80 numa espécie de democratização das capacidades electrónicas entre os músicos, invadindo (essencialmente) a secção rítmica dos grupos de (até então) pop, disco pop, soul pop (e por aí fora) todos numa versão dance-oriented, mas fortemente presente também nas teclas (enfim, o único instrumento até hoje verdadeiramente digital, já que completamente independente de qualquer processo “orgânico” para a criação de um som. Música house essa que por sua vez deriva então da disco music que já desde os anos 70 é dona das pistas de dança de todo o mundo (ocidentalmente falando, claro). A qual (disco music) por sua vez emergia da globalização do groove rítmico de raíz africana. Enfim, talvez seja melhor parar antes de chegar ao canto gregoriano para falar da micro-house.

A micro-house é então um derivado da house music e (na minha opinião) a salvação da house music depois dos anos 90. A reconversão da house a um estilo elaborado, pensado e trabalhado em estúdio com a mente de quem compõe música expurgando-se (parcialmente) do exagerado carácter comercial que assumiu em especial nessa ultima década do século passado. Não nos iludamos, 90% da house music que ouvimos é completa e puramente comercial. Pelo menos a que ouvimos involuntariamente ameaçados pelas rádios, as “trendy” lojinhas de roupa, bares do tipo “estou a cagar-me para a música, tira mas é lá mais um cuba daí de trás”, e discotecas-house-xungas que (felizmente) conheço poucas, porque quando me tenho de dar ao xunga então decido ir para o clássico do xunga e desço ali do bairro alto para passar no “Jamaica, Tokio & United World Corporation do Cais do Sodré”. Enfim, a uma noite xunga de qualidade é difícil negar-me… e de certeza não tem nada a invejar a uma noite de house comercial.

Mas voltando à micro-house e em particular à do nosso amigo finlandês. Na micro-house, o ritmo e os detalhes e particulares sonoros reconquistam um lugar de prestígio, graças (diga-se) à contaminação de estilos oriundos da irmã (não gémea), a contemporânea techno (e a mais jovem “minimal techno”). Essencialmente e em poucas palavras volta-se a trabalhar em ritmos e ambientes sonoros e, para saúde dos processos cerebrais ligados à apreciação auditiva, arrumam-se na gaveta boa parte dos loops de bateria standard da house rasca comercial usados e reciclados até à exaustão. Sejamos claros, falamos daqueles pratos de bateria standard que se podem encontrar ainda hoje e mesmo no seio da micro-house e da minimal techno, mas já não estão sozinhos perdendo-se por detrás de todo o novo trabalho na secção rítmica e, repito, nos contextos harmónicos/melódicos de ambientes tendencialmente muito spacy e que se tornaram um dos elementos de maior expansividade criativa por parte dos “músicos electrónicos”. Nota: não quero com isto afirmar que não haja house comercial de qualidade… mas é como encontrar uma boa bifana em plena baixa (encontras 200 mil se for preciso, mas vai lá desencantar a tasca com uma boa “bifana de Vendas-Novas”…).

Como o próprio adverte, Luomo é um dj que se apaixonou pelo som das vozes. (Mais um dos elementos massacrados pela house comercial. Sim, mesmo para os menos familiarizados com a música house sabe do que se fala quando se referem aquelas vozinhas sexy – quando elas – so fuckin’ macho bass – quando eles – em loop nas quais são quase omnipresentes as palavras “party”, “music” “body” “baby”… enfim, já deu para perceber a ideia, não?). É precisamente isso que faz, transformando-o quase numa imagem de marca sua, o senhor Luomo: traz de volta as vozes em loop, com a diferença que agora são muito menos sexy&macho mas muito mais viradas para algo de aparência introspectiva, e sobretudo construídas sobre uma panóplia instrumental elaborada, pensada e trabalhada nos detalhes e explorando os pormenores dos sons em vez de os cobrir de “sexy baby move your body”s com o gain levantado ao máximo. Daí o nome de Micro House. Da união entre a Micro house e as Luomo voices (quase sempre encarnadas pela conterrânea cantora jazz Johanna Iivanainen) nasce então a “Luomo’s Pop-House”, que, apesar do seu aspecto frio (ou antes, fresco), espontânea numa óptica norte-europeia, expõe um ambiente sonoro de carácter particularmente suave em longos temas de duração raramente inferior aos 10 minutos. Ou seja, um dos perfeitos géneros musicais para se ouvir naquele momento de fronteira entre a semana e o fim-de-semana.

Ora, a pergunta para esta noite é: Admitamos por hipótese que se encontram em Famalicão em plena sexta-feira dia 16 de Fevereiro. É já noite e de um rápido controlo nos bolsos resulta que vos sobram 7 míseros euros na carteira e que o baralho de cartõezinhos de plástico ficou todo em casa… esquecido… Que fazeis, meus amigos?… Ides imediatamente para casa abrigar-vos dos perigos da noite e da rua, ou preferireis colocar o vosso problema logístico ao mago e arquitecto sonoro Vladislav na esperança que este vos ajude com o seu (agora sim, é fácil) vocal-oriented-micro-disco-pop-house a encontrar uma boleia para casa mais tarde?… É claro que se por uma particularíssima sorte o vosso cachet não fosse tão reduzido então estão sem desculpas nos bolsos para ficar em casa…  A menos que a boleia já a tenham encontrado e esteja ali de mini saia à vossa espera no carro… Nesse caso… ide em paz, haveis feito a escolha certa. Mas lembrem-se de procurar uma cópia do novo “Paper Tigers”… Se não provarem, como podem saber o que é melhor? “(…) but you’re innocent when you dream, when you dream…” (cit. TW)

Discografia (long plays only): “Vocalcity” [2000] “Present Lover” [2003] “Paper Tigers” [2006]

Escuta aconselhada: “The Right Wing” /Vocalcity (on headphones!)



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This