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Jesus no Maxime

Jesus, the Misunderstood no Maxime. A ressurreição na Praça da Alegria.

Lisboa, 14 de Março de 2009. Uma semana depois do início da tour no Costello Club em Madrid, grandes expectativas rodeavam o lançamento, com o apoio da netlabel Merzbau, do EP “The Crooners Are Dead”, terceiro registo dos lisboetas Jesus, the Misunderstood.

Para a abertura, o cabaret da Praça da Alegria recebeu os madrilenos Autumn Comets, que chegaram à capital portuguesa com a indie-folk do seu primeiro LP, “Parades”, na bagagem. A compenetração, virtuosismo e gratidão – arriscando, de vez em quando, um tímido obrigado na língua de Camões entre as várias intervenções em castelhano – não passaram despercebidas a uma sala concorrida e bem composta de público, que começou a manifestar algum entusiasmo após a primeira surpresa da noite: a interpretação de «The day after tomorrow», juntando em palco os Autumn Comets e os Jesus, the Misunderstood, em espírito de irmandade ibérica.

Tal ligação fraternal, mostrou-se, na verdade, o conceito-chave de toda a segunda parte. A visível cumplicidade que une Luís Nunes (também conhecido como Walter Benjamin, com o álbum “The National Crisis” lançado no ano passado) a Manuel Dordio, Pedro Girão e Miguel Pereira foi o motor principal para o bom andamento do espectáculo.

Trajados a rigor como autênticos crooners, de fato e gravata, os quatro elementos fizeram-se acompanhar desde o início – um «Requiem for a Crooner» na voz de Luís Nunes – por Luís Pereira e da inglesa Becky Chilton.

A alternância entre temas novos, como o de abertura e recordações do álbum “Thinking too much increases the risk of smoking”, bem como a flexibilidade e polivalência com que os elementos da banda foram trocando de instrumentos revelaram-se ingredientes centrais para que cada momento fosse vivido como uma verdadeira festa.

Se o clima alegre já existia desde o início – o EP recém-lançado marca uma viragem nesse sentido, afastando-se das ambiências lo-fi para abraçar o psicadelismo nas guitarras e as vocalizações com filiação nuns Beach Boys – teve o seu auge em outra das surpresas da noite: uma muito enérgica cover de «Standing in the way of control», dos Gossip. Becky, a convidada, abandonou por alguns minutos a sua posição discreta nos coros e, seguindo as pisadas de Beth Ditto, assumiu o protagonismo.

Com igual entusiasmo, superada a hesitação inicial, foram recebidos os falsetes de Manel em «Bunnyranch», e a passagem de baterista a vocalista de Miguel em «Waiting for 10 days» e «Don’t waste your time», que se mostrou tão à vontade no centro das atenções quanto atrás dos pratos.

No muito celebrado encore, a articulação entre o passado recente e um futuro promissor não poderia ser mais expressiva: à mais antiga «April» seguiu-se o hino «The Crooners Are Dead», cantado também pelos Autumn Comets, numa recriação do cameo da primeira parte que fechou o palco com uma sensação de proximidade calorosa dentro e fora do palco.

Um bom presságio para o regresso do quarteto que, ao contrário dos crooners do título, demonstrou que não poderia estar mais vivo.



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